Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Estou deprimido!

por oficinadepsicologia, em 15.01.10

Autor: Francisco de Soure

Psicólogo Clínico

 

 

“Estou deprimido/a” é uma das expressões que se tornaram de uso corriqueiro no vocabulário português. Usamo-la como um substituto para “estou a ter um mau dia”, “estou triste”, ou “ando de mau humor”. Estar deprimido tornou-se um dado adquirido na nossa sociedade. Se, há uns anos, era motivo de vergonha ter uma depressão, hoje em dia tornou-se algo de comum. De tal maneira comum que se generaliza qualquer estado de baixa de humor como depressão. E se, a um determinado nível, se pode dizer que o uso do termo tem sido abusivo, esta massificação da expressão é um sinal dos nossos tempos. Na verdade, a depressão tem tido um crescimento exponencial na nossa população nos últimos anos. De tal forma que se fala hoje na depressão como a “constipação da saúde mental”. Qualquer um de nós tem um familiar, um amigo, ou já sofreu na pele os efeitos da depressão. A venda de medicamentos anti-depressivos nunca foi tão grande como hoje, as baixas médicas devidas à depressão nunca foram tão elevadas. A Organização Mundial de Saúde aponta hoje a depressão como uma das maiores causas de absentismo laboral e aponta para um crescimento ainda maior.

 

Ainda que a diversidade de definições e formas de diagnóstico dificulte a determinação da sua frequência real, neste momento estima-se que entre 30 e 60% da população mundial sofra, num dado momento da sua vida, de um episódio depressivo. Nos adultos a dimensão do problema é bem conhecida, e todos os indicadores apontam para que seja cada vez mais frequente em crianças e adolescentes, com consequências sérias. E quem já viveu ou viu o fenómeno em alguém próximo sabe o quão devastadores podem ser os efeitos da depressão na nossa vida.

 

 

Estudos médicos nos últimos anos têm vindo a demonstrar que a presença de depressão é um dos factores que mais retarda a recuperação de doentes em convalescença, e que pessoas deprimidas têm um risco muitíssimo aumentado de virem a sofrer de outras doenças do foro físico e mental, debilitando o sistema imunitário. Se, para algumas pessoas, os efeitos da depressão são subtis, como uma incapacidade para sentir alegria e prazer, desmotivação, insónia ou perda de apetite pela vida (ou seja, apetite alimentar, apetite sexual e até apetite social!), para outras os efeitos podem ser bem mais graves. A incidência de suicídio em países desenvolvidos aumentou meteoricamente nos últimos 50 anos, e são muitos os exemplos de pessoas que passam vidas inteiras debilitadas com sintomas depressivos.

Como esta diversidade de sintomas indicia, a depressão não tem uma manifestação linear e óbvia como outras doenças. É mais comummente associada à tristeza, choro, abandono dos cuidados pessoais, retraimento social, falta ou excesso de sono e apetite, ideias de auto-desvalorização. É esta, normalmente, a forma mais evidente de depressão. Outras existem, bem mais insidiosas, matreiras, que se mantêm escondidas e provocam um sofrimento enorme. Muitas vezes arrastam-se por anos, exactamente por não nos limitarem o suficiente para procurarmos ajuda. Vêem-se na desmotivação persistente, na ausência de momentos de alegria e prazer intensos no dia-a-dia, no pessimismo recorrente, na irritabilidade e ansiedade ligeira. Na maioria das vezes, chamamos-lhe outros nomes: preguiça, “mau-feitio”, “nervos”, “desmancha-prazeres” ou até timidez.

Ao longo dos anos muitas têm sido as explicações e causas atribuídas à depressão e ao seu crescimento nas sociedades modernas. De um ponto de vista sociológico, é frequente atribuir-se este crescimento à instabilidade e precariedade nas nossas vidas pessoais e profissionais, ao stress que coloca sobre nós a intensidade e exigência das profissões modernas, à desagregação do sistema familiar tradicional, ao florescimento de uma cultura orientada para o sucesso pessoal e imediato, medido pelo desafogo económico, por contraste com uma sociedade orientada para valores de proximidade com os outros e partilha e crescimento pessoal, ao mesmo tempo que as exigências do nosso dia-a-dia nos levam a um cada vez maior isolamento das pessoas de quem gostamos.

Psicologicamente, as explicações são muitas, e provavelmente todas igualmente verdadeiras. De um modo geral, é ponto assente que alguém deprimido tem ideias muito negativas acerca de si mesmo, do mundo em redor, e do seu futuro. Uma pessoa deprimida vê persistentemente o mundo através de óculos escuros com lentes quase opacas. A tristeza é aquilo de que mais tenta fugir e esconder-se, ao mesmo tempo que se torna a sua mais fiel companheira. Cada dia começa com uma nova expectativa de que pouco corra bem e dê prazer. As visitas ao espelho devolvem a imagem de uma pessoa de quem se gosta muito pouco. Os contactos com os outros proporcionam pouco prazer, até porque a dada altura se espera que os outros retirem muito pouco prazer em estar connosco. 

Em muitos casos, a depressão aparece sem uma explicação aparente. Vem de repente, sem se esperar, e só nos apercebemos que nos estamos a deprimir quando já o estamos. E, mesmo assim, são muitas as vezes em que nós próprios nem nos apercebemos que deprimimos. Para muitos, surge como consequência de perdas significativas. A morte de alguém querido, um sonho que se desfaz, o fim de uma relação próxima, uma mudança de vida repentina e desagradável, ou o acumular de situações de stress, de mágoa, de abandono e rejeição são algumas das causas mais frequentes.

A prática clínica em psicoterapia oferece-nos uma grande diversidade de exemplos. Na verdade, a depressão é o foco principal, ou aparece associado à maioria dos pedidos de ajuda em consultório. Qualquer psicólogo, ou até mesmo médico de Medicina Geral e Familiar, terá facilidade em identificar a depressão como uma das dificuldades presentes numa grande fatia de pessoas que o procuram.

No meio de tantas manifestações diferentes, é natural que se levantem muitas questões. Que demos por nós a questionarmo-nos se estaremos deprimidos. No entanto, algumas certezas existem. Em primeiro lugar, se se está a questionar se estará deprimido depois de ler este artigo, é provável que esteja. Em segundo lugar, há algo transversal a quem está deprimido: o sofrimento e a ausência de prazer na vida. Em terceiro lugar, dispomos actualmente de armas poderosas para combater esta perturbação. Em casos severos e crónicos, a medicação pode servir para aliviar alguns sintomas. Já a psicoterapia se tem vindo a desenvolver cada vez mais no sentido de dar respostas para quem sofre de depressão. Actualmente, pode-se actuar imediatamente e com eficácia sobre os sintomas, e de forma continuada permitir a pacificação das causas da depressão. Em quarto lugar, há que constatar a absoluta inutilidade de permitir o arrastar do sofrimento de uma depressão. Dizermos a nós próprios “isto passa” é um erro comum. Cada vez mais, a investigação aponta para que o prognóstico da depressão seja tanto melhor quanto mais cedo se intervier sobre ela. Se sente que está deprimido há muito tempo, não desespere. Uma depressão só é eterna se nós deixarmos. E, em quinto lugar, se parece certo que o desespero caracteriza a depressão, é cada vez maior a certeza de que a depressão é uma condição reversível, por isso tenha esperança!

E, acima de tudo, se sente que pode estar deprimido, não se resigne! Procure ajuda! É para isso que aqui estamos, é essa a nossa missão.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:32


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Fernando a 28.06.2012 às 13:55

Poxa vida, eu tenho os mesmos pensamentos desde quando tinha 15 anos, hoje tenho 23.
As vezes eu penso que só estou vivo por orgulho, por querer ser melhor do que as pessoas que já me sacaniaram... Também penso que só estou vivo porque penso que se houve alguma coisa depois da morte pode ser o inferno, pior do que aqui.
trabalhar e estudar realmente, é horrivel, você perder muito tempo para tentar sobreviver, assim te deixa pouco tempo pra sonhar e crescer do jeito que você quer.

Acho que minha vida seria bem mais facil com dinheiro, mas também não tenho certeza.
Uma coisa tenho certeza, fazer mal para os outros nao ajuda.
Imagem de perfil

De oficinadepsicologia a 08.07.2012 às 21:13

Caro Fernando,
as suas palavras deixam transparecer sentimentos de dor e mágoa. Quando nos centramos nos outros e na zanga que possamos sentir, caminhamos com uma grande carga que nos possibilita apenas, como refere, sobreviver de uma forma tóxica, presos no passado.
Independentemente do que já tenha vivido não perca de vista a ideia de que não podemos controlar o que nos acontece, mas o que fazemos é que realmente conta em relação ao nosso futuro. Permita-se a cuidar de si!

Um abraço,
Filipa Jardim da Silva
Psicóloga Clínica

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D