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Conjugar o pânico

por oficinadepsicologia, em 06.08.10

Autora: Madalena Lobo

Psicóloga Clínica

 

Eu panico, tu panicas, ele panica, nós panicamos, vós panicais…

 

Tenho que o inventar e conjugar, tal é a frequência, actualidade e democratização dos ataques de pânico – o pânico quando nasce, pode calhar a qualquer um…

 

Eles e elas panicam

Mais elas do que eles, numa proporção de 2 para 1, mais numa idade que se convencionou de jovem adulto, mas também na sombra que ameaça a meia-idade. E vêem séries de TV que lhes oferecem exemplos sinistros de uma loucura cinematográfica, tão improvável quanto rara, mas que lhes inculca a suspeita quanto a um modelo de descontrolo mental possível, talvez eu, quem sabe, talvez agora, estas sensações estranhas de irrealidade sejam o anúncio de que a razão me foge.

E têm acesso a tanta (des)informação, à distância de um clique: a dor no braço esquerdo, é assim que começam os enfartes; o formigueiro, presságio de um AVC; as arritmias, extra-sístoles e prolapsos da válvula mitral, conceitos descritivos que muitos tentam que sejam explicações, todos alinhados para nos assustarem com uma possível morte eminente, ninguém duvida, neste pico de mal-estar em que se escorrega para o pânico.

 

Vós panicais

Como expoente máximo de visibilidade de várias perturbações da ansiedade e outras, que não necessariamente a perturbação do pânico, ela mesmo, de pleno direito. Como desregulação ansiosa, pico máximo de um stress excessivo e devastador, o mesmo de que todos falam, mas que ninguém consegue identificar enquanto ele o arrasa. Como uma forma de um organismo dizer “não posso mais!”. Como quem grita “Socorro! Algo precisa de mudar”. Como emoções à solta, selvagens, desgovernadas, depois de terem andado presas no fingimento de que a vida é para a frente. Ninguém consegue contabilizar com realismo quantos de vós panicareis ao longo da vida – apenas sabemos que existe uma forte probabilidade de isso vos aconteça ou já tenha acontecido.

 

Nós panicamos

No perpetuar desta falta de informação em que os médicos, normalmente das urgências, teimam em se fechar. Exames de rotina, talvez uma injecção de um qualquer ansiolítico – acalme-se e vá para casa; isso é ansiedade, são coisas da sua cabeça. Como se alguém pudesse imaginar um mal-estar de tamanha dimensão. Como se alguém se regalasse a correr para o hospital mais próximo, na tentativa de impedir uma morte que lhe parece certa nesse momento. Como se não houvesse o direito à informação sobre o que se passa e como tratar.

Nós panicamos… com a culpa e a vergonha com que nos chegam as pessoas que sofrem de ataques de pânico, como se lhes cumprisse controlá-los e como se tranquilizarem-se fosse, mais do que um acto de vontade, um exercício de decência e decoro que falham em atingir.

 

Ele(a) panica

Lá em casa, a mulher ou o marido, a filha ou o filho, a mãe ou o pai, a irmã ou o irmão. E corre nas famílias, esta predisposição. Maldita! O que é que eu faço? Nada resulta – se peço calma, se peço que reaja, se tento distrair – nada resulta. Já passa, seguro-lhe na mão, chego-lhe um copo de água, afadigo-me na ilusão de que vou abreviar este tormento estranho. E quebro, impaciento-me, angustio-me, culpabilizo-me, não compreendo como é possível. Ele panica: o que é que eu faço?

 

 

Tu panicas

E encontras aqui, neste espaço que é teu, uma cadeira onde reflectes, entendes, desenhas mudanças, ensaias lidar com tudo o que és, deixando que o pânico se vá separando da tua pele, como quem larga, subtilmente, uma casca inútil.

 

Eu panico

A cada pessoa que ocupa essa cadeira pela primeira vez, contando-me uma história que já acumulou anos – 10, 12 de sofrimento perdido – em que se foi entretecendo pânico com a construção de si próprio, com uma vida em que o auto-desígnio teve uma voz sumida, no esforço de deixar o pânico ao largo. Eu panico de cada vez que leio o desespero nos olhos de quem partilha o meu espaço, sabendo-o escusado, tivesse sido correctamente acompanhado e tratado esse pânico que nos obriga a conjugá-lo em todas as pessoas.

 

publicado às 22:45


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