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Falar ou não falar, eis a questão....

por oficinadepsicologia, em 12.08.10

Autora: Irina António

Psicóloga Clínica

 

Penso que não me engano se disser que cada um de nós já sentiu aquela vontade quase prestes a explodir por dentro – vontade de descomprimir, de soltar em conversa e partilhar tudo o que se acumulou ao longo dos dias, meses, anos, dizer “toda a verdade” que tem guardado nas profundezas da sua alma … “Sim, porque quero ser sincera e ter uma relação transparente, comenta uma jovem mulher numa sessão terapêutica, porque não devo esconder nada do meu companheiro, ele tem de estar a par de tudo”.

Imagine que o seu companheiro / companheira convida-a (o) a sentar à mesa e iniciar uma conversa franca sobre o que têm passado na sua vida? É uma ideia simpática? Para quem está a escutar, às vezes, duvido… Até porque com alguma frequência toda a essência de uma conversa “aberta” reduz-se a um acréscimo da carga de problemas já suficientemente grande ou a uma crítica ao companheiro, e como resultado gera-se uma discussão.

 

Um truque pode impedir de alinhar com esta lógica - antes de iniciar uma conversa pergunte a si próprio: “É uma boa ideia partilhar algo neste preciso momento ou este assunto pode esperar ou ser resolvido por meios próprios?”. “Como aquilo que quero comunicar pode afectar o nosso relacionamento?” Segundo o terapeuta gestalt Joseph Zinker: “algumas coisas parecem ter “uma forma melhor”, se forem mantidas internamente”.


Na verdade, os tempos em que permitíamos partilhar tudo numa mensagem cem porcento verdadeira ficaram perdidos na infância. Nem adolescentes estão totalmente abertos com seus pais, pois já aprenderam “poupar” os nervos das suas mães, deixando por escapar algumas das verdades. E porque é que não poupar os nossos companheiros que, tal como nós, estão diariamente envolvidos em problemas com chefe, senhor do banco, mecânico do carro, professora do filho e tantos outros?

 

 

Diariamente enfrentamos problemas que não exigem um contacto emocionalmente profundo: “não esqueças de passar no supermercado”, “ arruma a máquina de loiça”, “espero que consigas sair mais cedo do trabalho para irmos ao cinema”, “outra vez deixaste tua roupa desarrumada”, “pedi para limpares a casa de banho dos gatos”, “ajuda ao filho com trabalhos de casa, enquanto faço jantar”, “esqueceste de pagar a conta da luz”... E mesmo nestas preocupações aparentemente simples, um companheiro “experiente” pode encontrar uma razão para conversar e “falar da relação”. “Nos atrasamos ao cinema, por… tua culpa…” E com estas palavras celebrar o início de uma conversa “sincera e aberta”.

 

Infelizmente, a maior parte destas conversas resumem-se ao seguinte: “o meu companheiro deixa-me frustrada. Quero que ele mude”, continuando com uma interminável lista de queixas. Curiosamente, as mesmas, habitualmente, são mútuas: também o próprio companheiro consegue encontrar inúmeras razões para não sentir satisfeito na relação. Parece confuso, mas serve de motivo para uma reflexão.

Experimento dar um conselho técnico: “quando fala dos seus sentimentos, utilize as frases com um ponto final: “estou triste”, “estou decepcionado”, “não quero”. E mais nada, sem cair na tentativa de explicar seja o que for. Porque cada explicação é essência da acusação. E cada acusação anda de mão dada com a justificação / defesa. E a melhor defesa é o ataque. Agora estão a imaginar mais uma vez a famosa “conversa sincera”?

 

Espero que não o (a) tenha deixado demasiado perplexo (a) com a questão de dizer ou não dizer, até porque o mais importante é o facto que enriquecemos muito no processo de partilha. Única questão é como gerimos este processo na relação íntima. Experimente partilhar a alegria! Não tenha vergonha das emoções positivas que lhe estão a encher o coração. Ás vezes parece que falar de algo desagradável ou impessoal tornou um dos traços da comunicação íntima nos dias de hoje e a partilha emocionalmente positiva surpreende-nos, deixa-nos com sensação de ficar desarmados e com dificuldade em retribuir com o mesmo.

 

A relação íntima é um caminho cheio de desafios, cuja concretização passa muito por saber comunicar com palavras ou com silêncio. Nesse caminho desejo-lhe muitas conquistas feitas com coragem, paixão e responsabilidade.

 

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publicado às 10:11



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