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Este consultório da Oficina de Psicologia tem por objectivo apoiá-lo(a) nas suas questões sobre saúde mental, da forma mais directa possível. Coloque-nos as suas dúvidas e questões sobre aquilo que se passa consigo.
Email recebido
Doutora, queria falar um pouco consigo sobre uma coisa que me atormenta e que não sei como ver resolvida.
Desde muito novo que eu tenho pavor a doenças. Seja de que tipo for.
Se eu tiver uma mínima dor começo logo a imaginar o pior. Ando constantemente a pesquisar na Internet os sintomas de várias doenças, para ver se alguma corresponde aquilo que sinto. Eu não sei o que fazer, pois isto deixa-me completamente transtornado. Não paro de pensar que posso estar gravemente doente. O que posso fazer? Obrigado.
Resposta
Caro A.
A julgar pela descrição que nos deixa, parece que este medo com que vive tão frequentemente é um factor muito perturbador do seu bem-estar, e imagino que muito desorganizador da sua vida. O medo obsessivo da doença é uma condição bem estudada e, infelizmente, muito frequente nos tempos que correm. De tal forma que a sua designação clínica se tornou um termo corriqueiro: hipocondria. Por corriqueira que seja a expressão, quem sofre de hipocondria é que sabe realmente o quanto sofre com isso. Particularmente porque parece haver uma tendência social para desvalorizar o quanto esta perturbação nos pode assustar, e muitas vezes nós próprios a calamos por sentirmos vergonha e medo desta desvalorização. Viver com hipocondria é viver num permanente sobressalto. É viver permanentemente com medo. É aquilo a que se chama uma perturbação do espectro ansioso, por originar de forma recorrente esta mesma emoção: ansiedade. Muitas vezes, parece que a única forma que temos de a acalmar é pesquisar vorazmente aquilo que tememos estar a afectar-nos até termos a certeza que não é disso que sofremos. Esta pesquisa incessante torna-se extenuante, e consome demasiado tempo para o alívio temporário que proporciona. Trabalhar a hipocondria passa por um conjunto de 4 vectores de intervenção: relação com o corpo, estratégias de contenção da ansiedade, gestão de pensamentos intrusivos e intervenção nas estruturas emocionais que a originam. Trabalhar a relação com o copor implica aprender a conhecer a "linguagem" que o corpo fala: muitas vezes o nosso corpo manifesta-se através de sensações pouco habituais. Importa aprender a reconhecê-las como normais, de forma a retirar-lhes a carga assustadora. Para complementar este trabalho, é importante adquirir estratégias de gestão da ansiedade (particularmente através da respiração e relaxamento muscular) que nos permitam responder ao nosso corpo com mensagens tranquilizadoras. Quando sofremos de hipocondria, também é frequente surgirem-nos ideias perturbadoras e intrusivas acerca da nossa saúde. É importante aprender a discriminar estes pensamentos, e geri-los de forma a que percam a sua capacidade de adquirir estatuto de verdade absoluta. Por último, viver com hipocondria é viver com uma consciência aguda da nossa fragilidade e mortalidade. Trabalhar a forma como nos relacionamos emocionalmente com estas ideias é o último vector de intervenção.
Espero que esta resposta ajude a clarificar a sua situação, e permita que encontre a ajuda de que precisa. Caso necessite de qualquer outro esclarecimento ou ajuda, não hesite em contactar-nos e consultar o nosso website.
Um abraço,
Francisco Soure
Oficina de Psicologia