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Agora a sério: vamos brincar!

por oficinadepsicologia, em 09.12.10

Autor. Raúl Caeiro

Psicólogo Clínico

 

 

Quando pensamos em brincar, provavelmente pensamos em crianças. Com grande probabilidade, não ocorrerá pensarmos em primeiro lugar em adultos. Contudo, temos documentos (nomeadamente pinturas e representações gráficas) que nos mostram que o jogo era algo muito praticado por adultos na Idade Média. O que aconteceu nestes 500 anos? Teremos perdido algo muito importante na nossa cultura?

 

 

Decidi partilhar convosco o trabalho de um autor cujo trabalho acompanho por considerar notável. Stuart Brown é um psiquiatra americano que, no decurso da elaboração de perfis psicológicos de homicidas, bem como de investigação científica sobre este tema, se deparou com a ausência de comportamentos de brincar nas histórias de vida destes indivíduos. Os dados dos estudos que levou a cabo com outros investigadores apontam para a conclusão de a privação das experiências de brincar (a supressão das normais actividades de brincar no desenvolvimento de uma criança) terem contribuído fortemente para tornarem mais susceptíveis à violência os indivíduos estudados. Este tipo de estudos em populações de risco sensibilizaram Stuart Brown para a importância do brincar, levando-o a questionar sobre este tipo de experiências sempre que entrevistava alguém. Assim, no outro pólo deste contínuo, constatou a presença activa do brincar nas histórias de vida de indivíduos de sucesso em várias áreas profissionais.

 

Porque vos trago este autor? Porque ele nos fala da seriedade do acto de brincar. Apresentando dados da Biologia Animal, o autor mostra como comportamentos fixos, rígidos e estereotipados, como o de comer, podem levar a um outro fim, quando determinados sinais físicos dos animais estão presentes (ex: olhar meigo, garras retraídas, dentes e presas ocultos, movimentos circulares, etc.). Esses sinais permitem aos animais entrar num estado alterado no qual podem explorar o possível: fazer algo que não fariam sem a presença dos sinais do brincar.

 

 

Stuart Brown identifica como ponto inicial do brincar nos humanos o momento em que uma mãe e o seu bebé se olham nos olhos, sensivelmente no período em que o bebé já adquiriu o chamado sorriso social (sorriso intencional e dirigido a pessoas). Portanto, seria na relação precoce, na primeiríssima relação humana, que cada um de nós começaria a brincar. Através dos olhares, gestos, balbucios do bebé, bem como do olhar atento da mãe e das suas respostas atempadas e em sintonia emocional, o bebé, que é a cria deste animal humano, começaria a estabelecer os alicerces do que é ser humano. Parece, pois, que nessa tão fundamental etapa de vinculação do bebé aos seus cuidadores, os sinais do brincar são fundamentais para que se estabeleça uma interacção entre bebé e mãe que permita a sobrevivência do primeiro e o seu posterior desenvolvimento. Todo o tipo de actividades de brincar mais complexas se constroem sobre esta base inicial.

 

Ainda referindo-se ao brincar nas crianças, o autor identifica a curiosidade e a exploração como parte do cenário da brincadeira. Podemos acrescentar que só pode sentir curiosidade e ter vontade de explorar o ambiente a criança que se sinta segura, não só das suas capacidades, como também da existência de cuidadores que lhe servem de base segura para essas explorações e de porto de abrigo para quando regressa dessas suas “odisseias” exploratórias.

 

Stuart Brown sublinha ainda a importância de várias “categorias” do brincar. Assim, fala do brincar enquanto aspecto importante da socialização e da criação de um sentimento de pertença a um grupo. Refere a relevância do brincar para a aprendizagem, defendendo que crianças em idade pré-escolar deveriam ser permitidas ser caóticas, morder, mergulhar, bater, etc., desenvolvendo assim regulação emocional e competências sociais (cognitivas, físicas e emocionais). Ressalta a importância primordial daquilo que designa de “brincar imaginativo”, ou seja, do brincar solitário que envolve e desenvolve a imaginação. Por último, destaca o valor do brincar na capacidade de tecer narrativas, de contar histórias, que seriam a unidade básica de entendimento dos seres humanos.

 

Uma nota particularmente interessante é quando Stuart Brown afirma que o contrário do brincar não é o trabalho, mas… a depressão. De facto, se imaginarmos a vida humana desprovida de qualquer espécie de brincadeira, isto é, sem humor, sem jogos, sem sedução, etc., o que temos é um comportamento depressivo. Então parece que, para além da importância vital que o brincar tem nas fases mais iniciais da vida humana (infância), esse comportamento continua a ser muito necessário e útil na vida adulta, tanto mais que a espécie humana é muito marcada pela retenção de capacidades “imaturas” na idade adulta, o que se relaciona directamente com a elevadíssima flexibilidade e adaptabilidade que apresenta.

 

Para não concluir, por que não brincamos mais? Uma pessoa que não brinca não deve ser uma pessoa séria…

 

publicado às 20:44



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