Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Este consultório da Oficina de Psicologia tem por objectivo apoiá-lo(a) nas suas questões sobre saúde mental, da forma mais directa possível. Coloque-nos as suas dúvidas e questões sobre aquilo que se passa consigo.
Autora: Ana Crespim
Psicóloga Clínica
Por vezes queixamo-nos… De quê? De tudo! Do marido ou da mulher, dos pais, dos filhos, dos amigos, dos colegas, do trabalho, em suma, da vida! Queixar-se parece fazer parte da forma de estar do ser humano em geral, é banal e já ninguém liga muito a isto. Quantas vezes estamos a falar do que achamos ser o nosso problema a alguém e esse alguém, em vez de comentar o que nos aflige, de nos apoiar, animar, responde com uma frase do género: “Então e eu? Estou bem pior do que tu!” e começa a desbobinar os seus temas, como que desvalorizando o que nos preocupa. Pois é… Parece que todos nós queremos ter um lugar, um espaço onde possamos falar sobre tudo e nada, mas tendo a atenção do outro. A grande questão é que, muitas vezes, as pessoas que nos rodeiam estão tão mergulhadas nos seus próprios problemas, que não têm disponibilidade mental para nos ouvir, pelo menos não com a atenção que deseja-mos. É por vezes aqui que começamos a sentir-nos sós, apesar de rodeados por várias pessoas, que sentimos que ninguém nos ouve, mesmo se gritarmos.
As consultas de Psicologia são muitas vezes associadas à loucura, à psicopatologia, mais do que a um espaço onde duas pessoas constroem uma nova “realidade”. Já dizia Fernando Pessoa: “Pedras no caminho? Guardo-as todas. Um dia, vou construir um castelo”. A construção deste castelo nem sempre é fácil. Escolher qual a pedra que melhor encaixa naquele sítio em particular, que ordem seguir na sua construção, entre outros problemas arquitectónicos que vão surgindo. A dois, como quase tudo na vida, o trabalho simplifica-se e a motivação para prosseguir com a obra é quase sempre mais elevada.
Neste sentido, sugiro-lhe algumas formas de encaixar meia-dúzia de pedras, aproveitando o simbolismo de recomeço, que muitas vezes atribuímos à entrada num novo ano.
Que tal enterrar, literalmente, algumas coisas menos boas deste ano? O Ser Humano, no seu quotidiano, por vezes até sem ter consciência disso, atribui valor simbólico às suas experiências através de certos objectos. Um exemplo gritante é o das alianças que simbolizam união, amor eterno (pelo menos, é essa a ideia :=) ). Porque não pegar em certos objectos, que possam simbolizar o que correu menos bem este ano, colocá-los numa caixa e enterrá-los? Não consegue encontrar objectos com esse significado? Não há problema, escreva! Passe para o papel aquilo que quer tirar “de dentro de si”, coloque à sua frente através de palavras, de frases, o que gostaria de deitar fora, como se despeja-se para o papel, e queime-o ou enterre-o. Pode também, tal como um cliente me ensinou, colocar num balão uma palavra que espelhe a experiência menos boa e, no dia 31 de Dezembro, deixá-los voar por cima de um rio, numa praia ou num campo, deixando que o mal-estar voe para bem longe (de preferência, que rebente! :=) ).
Uma outra possibilidade é a da transformação. Está a ver aquele anel, que certa pessoa lhe deu, mas que, como as coisas correram menos bem, ficou o anel e foi-se a pessoa? De cada vez que olha para ele sente-se triste? Associa-o ao fim de algo? Transforme-o! Leve-o a uma ourivesaria para que o possam transformar em outra peça que simbolize o melhor que tirou dessa experiência. Este é apenas um exemplo, as possibilidades são mais que muitas.
Não existem fórmulas certas, o que importa é que lhe faça sentido, que este “ritual de passagem”, de continuidade, o (a) ajude a integrar o que anda a soar como um eco na sua mente, no seu coração.
Pense nisto e… boas construções! Bom ano de 2011!