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Ansiedade Social

por oficinadepsicologia, em 12.01.11

E-mail recebido

 

"Boa tarde,

Tenho 16 anos e sou estudante, encontrei o vosso site recentemente e fiquei surpreendida ao ler sobre Fobia Social, pois foi como ler uma descrição detalhada sobre mim mesma.
Não sei se terei mesmo uma fobia social, mas que algo tenho isso eu sei.
Na escola não consigo inserir-me em grupos de amigos, manter ou iniciar uma conversa, falo apenas com duas ou três raparigas mais próximas e é só. Qualquer outra pessoa que coloque conversa eu não consigo falar e faço de tudo para evitar. Espanto-me comigo mesma, pois invento o que for preciso para não estar com pessoas. Até apanhar o autocarro tenho de esperar mais de 1 hora, como não gosto de esperar na paragem porque podem aparecer pessoas que falem comigo ou simplesmente olham, eu vou para um café pouco frequentado e lá fico a fazer tempo até à hora. Se entrar no café e estiver pessoas conhecidas ou da minha idade compro uma pastilha e saio, mesmo que tenha ido com intenção de lanchar.
Estou farta de constantemente mudar a minha vida por este receio parvo, eu detesto ser o centro de atenções, detesto apresentar trabalhos, se me atrasar para uma aula já não tenho coragem de bater e entrar. Pois isso implica ser o centro de atenções por momentos, por isso nunca chego atrasada. Não tenho coragem para bater à porta de pessoas, pedir informações ou mesmo telefonar. Não saio nem vou a festas porque nunca sei como me comportar e acabo por me sentir completamente humilhada, invento desculpas e não vou. Digo sempre que os meus pais não me deixam, mas na realidade nem lhes pergunto. Mas ultimamente os poucos amigos também se afastam mais. Nas férias limito-me a ficar fechada no quarto a ver filmes e séries. No entanto sou boa aluna e tenho boas notas, acho que pela simples razão de não querer decepcionar os meus pais nem ser chamada à atenção na escola.
O que posso fazer? Não quero procurar psiquiatras ou psicólogos porque isso implica falar disto com alguém (o que nunca fiz) e por isso peço ajuda a vocês, o que me aconselham? Eu realmente quero melhorar, quero andar na rua de cabeça erguida e sem medo de olhar na cara das pessoas, sem medo do que pensam ou dizem de mim, quero namorar como todos os outros, sentir-me acarinhada e amada, mas como se não consigo chegar perto das pessoas? Continuo a dizer a mim mesma que quando for para a Universidade, e provavelmente morar com gente da minha idade, que tudo irá mudar. Que encontrarei um namorado, que irei ter amigos e ir a festas. Mas na realidade o que sou agora não vai mudar de um dia para o outro, verdade? Ajudem-me por favor."

 

 

Cara  L

 

Antes de mais, ainda bem que encontrou o nosso site e teve oportunidade de se dar conta que as dificuldades que sente se enquadram num perfil de sintomas bem conhecido. De facto, os comportamentos e emoções que descreve, bem como a forma como pensa e antecipa qualquer situação social encaixa “que nem uma luva” com os sintomas de Ansiedade Social. Dadas as dificuldades que sente em estabelecer interacção com pessoas fora do seu círculo de confiança, parece-me perfeitamente natural que lhe pareça uma tarefa hercúlea relatar as suas dificuldades a um profissional de saúde mental. No entanto, e dado o quadro que pinta, permita que partilhe a minha preocupação com a sua situação. As perturbações de Ansiedade, como é o caso da Ansiedade Social, caracterizam-se por comportamentos de duas categorias: evitamento ou fuga. Neste caso concreto, fuga de situações sociais potencialmente embaraçosas nas quais estamos já envolvidos (como, por exemplo, sair de uma paragem de autocarro quando começa a encher), ou evitamento de situações que antecipamos como sendo geradoras de maior ansiedade (por exemplo, ir mais tarde para a paragem se antecipamos que esteja muito cheia de gente). Estes comportamentos permitem um alívio temporário da ansiedade, pelo que os repetimos. A longo prazo, no entanto, aquilo que fazem é agravar o medo e desconforto que sentimos. Quanto mais nos retiramos destas situações, menos competentes e seguros nos sentimos nelas. O que resulta, com a passagem do tempo, numa escalada dos sintomas... até que nos começamos a ver como verdadeiros “bichos do mato”! É exactamente isto que me preocupa no seu relato: é evidente o quanto sofre com tudo isto, e igualmente evidente o quanto se bate para evitar este sofrimento. Por muito que lhe custe conceber partilhar isto com alguém, diz-nos a experiência que sem acompanhamentos especializado é difícil ultrapassar quadros de Ansiedade Social. Pelo contrário, se bem trabalhados, estes quadros têm evoluções muito favoráveis. Por isso fica aqui o melhor conselho que lhe posso dar:  procurar ajuda especializada. Existem técnicos altamente treinados para dar resposta especificamente a situações como a sua. Em qualquer caso, há algo que pode ir fazendo. Sabendo, de antemão, que é um difícil desafio. Pode lutar contra a tentação de evitar e fugir de situações sociais. Faça uma escala por ordem crescente das situações menos perturbadoras para as mais perturbadoras. Dedique-se a ir-se confrontando gradualmente com cada uma delas. Feito com um psicólogo, este processo seguirá o seu rumo ideal. Mesmo que decida não procurar acompanhamento, por favor não baixe os braços!

Um abraço,

 

Francisco de Soure

Oficina de Psicologia

 

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publicado às 15:11


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