Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Carta de um filho

por oficinadepsicologia, em 21.05.11

Autora: Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

Inês Afonso Marques

Queridos papás,

Escrevo-vos esta carta porque queria que soubessem como às vezes me sinto baralhado. Vou tentar explicar-vos o que se passa cá dentro de mim.

 

Lembram-se quando no outro dia cheguei da escola com um bom, dos grandes, a História? Eu estava muito orgulhoso e esperava muita alegria da vossa parte. Afinal de contas era o primeiro bom a História. Mas, a única coisa que vocês me disseram foi “Que bom! Agora tens de começar a estudar para o próximo” e logo a seguir foram brincar com o mano enquanto eu fiquei sozinho no meu quarto perdido no meio de livros e cadernos.

 

E lembram-se daquele dia em que chegaram a casa e eu tinha partido uma jarra porque andei a jogar à bola em casa? Fartaram-se de ralhar comigo. Que grande sermão eu ouvi! Nem repararam como eu estava assustado pelo que tinha acontecido. Na outra vez em que trouxe um recado na caderneta porque me tinha esquecido da flauta para a aula de Música, fui escondendo a caderneta com receio do que fossem dizer. Claro que quando descobriram ainda ficaram mais furiosos e eu tive um grande castigo. Naquele dia disse, para mim, “vou esconder as coisas mais traquinas que faço, para os papás não ficarem zangados”.

 

 

Então, quando alguma coisa corre mal, costumam acontecer dentro de mim duas coisas.

Uma delas é a sensação que eu tenho que quanto maior for o disparate que faço, mais atenção vocês me dão. Eu até sei que não devo fazer disparates, mas eu sou criança e gosto de perceber como as coisas funcionam, de experimentar, de inventar. E às vezes esqueço-me das coisas e não me consigo organizar sozinho. Preciso da vossa ajuda. Percebem? Eu fico confuso porque assim, quase sem me conseguir controlar, acabo por fazer mais malandrices. Sei que a seguir vou ter direito a uns grandes minutos dos papás só para mim.

 

Noutras vezes fico com muito medo. Vocês ficam com aquele ar chateado, como os desenhos animados com os cabelos em pé e a deitar fumo pelas orelhas, e eu fico cheio de medo que deixem de gostar de mim. Então, das próximas vezes que acontecerem “pequenos acidentes”, eu vou tentar esconder-vos. Não quero que se zanguem comigo e que me deixem sozinho.

 

Eu sei que vocês se preocupam comigo e me querem chamar à razão quando me porto mal. Mas, e quando me porto bem? Gostava tanto que me elogiassem, que me mostrassem como estão contentes, e me fizessem uma festa de sorrisos. Que me dessem mais atenção quando as coisas correm bem.

 

Sabem o que eu gostava? Que quando não me porto bem, tentassem ouvir aquilo que tenho para vos dizer, o que aconteceu e como me sinto. Gostava que me dessem muita atenção quando faço aquelas coisas que os pais gostam. Que não assumissem sempre que é minha obrigação fazer essas coisas. Que festejassem comigo as minhas conquistas!

 

Um beijinho,

Filho

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:22


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D