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Ansiedade existencial

por oficinadepsicologia, em 08.06.11

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

 

Fabiana Andrade

A compreensão do conceito de Ansiedade Existencial é útil no sentido de integrarmos as nossas experiências de ansiedade como sendo experiências sem as quais, uma grande parte da nossa existência deixaria de fazer sentido.

 

Do ponto de vista existencial, olhar para a patologia é olhar para o Homem que sofre, estar mais perto dele e vê-lo como alguém que existe para além da perturbação que o traz ao consultório. Todos os outros aspectos da existência do indivíduo são igualmente importantes. O homem não está separado da sua perturbação, do seu corpo, dos seus sintomas e queixas, tudo isso acontece na sua existência ao mesmo tempo que o seu processo decorre, assim, quer a ansiedade como qualquer outro tipo de experiência ajustada ou não, é vista como uma dimensão com significado que pode ser desvelado no contexto da Psicoterapia.

 

Muitos autores da Psicoterapia Existencial, fazem a distinção entre ansiedade e medo, e esta nos ajuda a compreender melhor a natureza difusa da ansiedade. A ansiedade é caracterizada pelo facto de que a ameaça não está em lugar nenhum. As pessoas referem muitas vezes o medo de situações que não aconteceram, e como tal, não existem no presente.

O medo por sua vez, está relacionado com a percepção de uma ameaça real e é desta forma, uma emoção protectora contra esta ameaça percebida.

 

Então, qual é a origem da ansiedade?

 

 

Nesta perspectiva teórica, a ansiedade surge com a possibilidade de liberdade. Como a possibilidade é referente ao futuro, a ansiedade também o será. Assim, como o futuro é um leque de possibilidades ainda não realizadas, surge a necessidade de escolha e com esta, a ansiedade. Por sua vez, assim que a escolha acontece, a ansiedade desaparece, para voltar a surgir quando outras possibilidades surgem, e assim por diante, num movimento contínuo.

 

Deste ponto de vista, a própria existência evoca a ansiedade, e ela por isso, não pode ser eliminada na totalidade, na medida em que é parte do que é ser humano.

 

A ansiedade existencial está na essência do ser humano, e pode surgir com várias características: ansiedade de morte, ansiedade de falta de sentido ou vazio, ansiedade de culpa.

 

A ansiedade de morte, seria a última e absoluta manifestação do “não ser”, o fim inevitável a que todos se dirigem. É o horizonte permanente contra o qual as mais relativas ansiedades em quanto ao destino, operam.

 

O destino implica fatalismo, contingência e imprevisibilidade. A ansiedade em relação ao destino é aquela que experienciamos quanto aos dados da nossa existência sobre os quais não temos o menor controlo ou influência, por exemplo, o local e hora do nosso nascimento, a nossa idade, a nossa família e o facto de que vamos morrer, vamos perder pessoas, as situações de vida vão mudar, podemos adoecer e etc. As causas determinantes destes dados não têm lógica ou necessidade, simplesmente são.

 

A ansiedade de vazio ou falta de sentido relaciona-se a um significado que dá significado a todos os outros. A perda da fé ou religião é provavelmente o exemplo mais familiar desta perda de significado, no entanto, a perda de um “centro espiritual” não está necessariamente restrita à religiosidade.

Esta ansiedade é causada pela ameaça do” não ser” a alguns componentes especiais da vida espiritual. Assim, dá-se por exemplo quando um interesse previamente puramente consumista já não nos motiva, ou quando uma mudança de perspectiva faz-nos reavaliar uma crença outrora sólida. Quando isso acontece, um novo “centro espiritual” não pode ser produzido intencionalmente, a tentativa de o fazer só serve para aumentar a ansiedade. A ansiedade de vazio leva-nos para o abismo da falta de significado e uma das formas por vezes encontrada para lidar com este tipo de ansiedade é o abandono das próprias capacidades de duvidar e questionar, isto é, absorvermos valores dominantes e tradicionais, crenças, atitudes. Ao fazê-lo, o homem esquece da sua liberdade essencial.

 

O abandono da nossa responsabilidade e liberdade pessoais relaciona-se directamente com o terceiro tipo de ansiedade, a ansiedade de culpa/condenação.

 

Esta concerne à responsabilidade de cada um consigo mesmo. O homem é responsável pelo seu ser, é-lhe “pedido” que responda “o que fez de si mesmo”. Quando a pessoa não assume responsabilidade pela sua própria felicidade, realização e caminho e vive preso à noção de culpa, sempre será ou culpado ou vítima e nunca responsável. Desta forma, nunca terá poder de atingir o seu potencial.

 

A ansiedade nos leva em direcção à coragem pois a alternativa é o desespero. A fonte de coragem é vista como a tentativa de superar a ansiedade através da integração dela mesma no ser.

 

Em contraste, a recusa ou incapacidade de integrar a ansiedade e a tentativa de evitar o desespero, é considerado por vários autores como a fonte da perturbação. Acabamos por evitar o “não ser” através do evitamento do “ser”. Para não morrer, ou não sentir vazio ou culpa, eu deixo de viver plenamente a minha vida em todo o seu potencial.

 

Assim, a distinção entre o que é ansiedade existencial e o que é ansiedade patológica poderia ser colocada da seguinte forma: A ansiedade existencial pertence à existência como tal. A forma do indivíduo lidar com a ansiedade vai reflectir se esta tem origem existencial ou patológica. Por exemplo, a ansiedade de morte ou destino cria em todos nós a necessidade absoluta de segurança. A resposta não patológica à esta necessidade seria o reconhecimento de que segurança absoluta simplesmente não é possível e o encontro de coragem para abdicar de uma certa segurança em prol da auto- afirmação. Por outro lado, a ansiedade patológica neste caso, impele para a segurança que pode ser comparada à segurança de uma prisão.

 

A nossa experiência de ansiedade existencial estaria ligada sempre ao desejo de segurança, perfeição e certeza. A incapacidade de tolerar períodos ou episódios de insegurança, imperfeição ou incerteza irá marcar a distinção entre ansiedade existencial ou patológica.

 

 

 

 

 

A ansiedade existencial é utilizada para encontrar uma solução construtiva para a situação causadora dela mesma, a ansiedade patológica é aquela que resulta numa defesa ou evitamento do problema, causando sentimentos de impotência, paralisia, que por sua vez tendem a ser a causa e/ou manutenção da mesma ansiedade.

 

Ansiedade significa que há possibilidades, nas possibilidades surge a nossa liberdade e esta é o espírito humano. Se vivermos num mundo sem ansiedade não existe espírito humano.

 

A ansiedade com seus sentimentos de desamparo, isolamento e conflito é uma experiência dolorosa. Pela sua natureza difusa, muitas vezes, é considerada uma experiência mais dolorosa do que outras em que existe uma maior objectivação como o medo ou o stress.

 

A psicoterapia ajuda-nos a explorar dois lados da ansiedade e superar estes sentimentos, o positivo e o negativo. O primeiro inclui humor, autoconfiança, confiança nos outros, actividade, motivação. Modos mais destrutivos podem estar associados à uma timidez excessiva, a doenças psicossomáticas, ao recurso à utilização do álcool e drogas, à rigidez do pensamento. Qualquer ganho obtido através da implementação de uma destas soluções negativas é, em última análise, pouco saudável.

 

Apesar da consciência da ansiedade poder ser mais dolorosa que o seu evitamento, ao menos dá ao indivíduo a opção de confrontar esta mesma ansiedade de uma forma construtiva. A ansiedade representa a presença de uma contradição no sistema de valores de um indivíduo, mas enquanto existe conflito, uma solução positiva faz sempre parte do leque de soluções possíveis.

 

A erradicação total da ansiedade é impossível, formas positivas para lidar com ela são aconselháveis. A expansão da consciência e reeducação por exemplo, são formas positivas para lidar com a ansiedade. A primeira requer uma exploração do valor ameaçado levando à identificação dos objectos conflituosos e do seu desenvolvimento. A reeducação requer que a pessoa reestruture seus objectivos e escolha seus valores adequadamente, de forma responsável e realista.

 

Quanto mais consciência a pessoa tiver de que a ansiedade é inevitável, de que é algo que se pode praticar e utilizar construtivamente, melhor vai viver.

 

 

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publicado às 11:44


3 comentários

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De Pedro Lima a 16.06.2011 às 01:51

Oi Bia. Adorei o que li e garanto-te que é por ler coisas como as que escreveste que consigo lidar com a minha ansiedade. Mais uma vez obrigado. Tenho pena que os nossos caminhos se tenham cruzado pouco. Beijinhos.
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De wallas a 28.11.2013 às 12:56

adorei a exposição da pesquisadora. profundo e pontual. tenho uma vida sexualmente fora dos padrões da religião evangélica junto com a minha avó, mãe de criação, e irmã, que mora comigo e é a minha afilhada (minha mae de sangue, mãe desa minha afilhada, morreu este ano, há seis meses) e ontem tive uma certa crise existencial. rigidez de pensamento para obter significado da nossa origem e qual o sentido para onde vamos. Mas de certa maneira seu artigo me aliviou e muito. Há algum conselho a mais para mim?
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De oficinadepsicologia a 03.12.2013 às 17:18

Obrigada pelo seu comentário. Procure desenvolver uma postura mindful no seu dia-a-dia, ou seja, mantenha-se consciente de si e dos seus pensamentos, emoções e sensações físicas numa postura compreensiva e curiosa, deixando a crítica e a impaciência de parte. Os pontos de interrogação fazem parte de um caminho de crescimento pessoal, pelo que abrace-os e desconstrua-os ao invés de lutar contra eles.

Um abraço,
Filipa Jardim da Silva
Oficina de Psicologia

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