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Culpa ou responsabilidade?

por oficinadepsicologia, em 20.03.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Já experimentou o sentimento de culpa? Recorda-se do peso que sentiu? De ficar como que paralisado, como se nada o pudesse tirar dali, desse sítio escuro e pesado? É de facto o efeito que a culpa tem em nós, ela paralisa, bloqueia, impede o avanço, dificulta a reparação.

Sim, porque muitas vezes fizemos de facto coisas erradas, magoámos pessoas, fomos rudes ou negligentes, procrastinámos, não cumprimos os nossos objectivos por desleixo ou falta de organização, ou falta de motivação; e sim, de facto fomos nós os agentes, éramos nós que estávamos lá, a bola estava nas nossas mãos.

 

Mas a questão é: somos culpados ou somos responsáveis?

E poderá até parecer-vos redundante, poderão dizer-me “dá tudo no mesmo”. Mas sugiro que experimentem. De cada vez que derem por vocês a dizer “eu sou culpado” ou “a culpa é minha”, experimentem logo de seguida mudar para “eu sou responsável”, “a responsabilidade é minha”, e fiquem um bocadinho a olhar para vocês mesmos, não com os olhos de fora mas com os olhos de dentro, e apercebam-se se alguma coisa muda na forma como o vosso corpo reage, como o vosso corpo sente estas frases. O peso é o mesmo, ou há algo de diferente, talvez mais leve? Continuam a sentir aquela paralisia ou parece que a informação flui melhor, que é mais fácil sair daquele sítio escuro e doloroso onde caímos quando nos desiludimos connosco mesmos?

 

A diferença entre a culpa e a responsabilidade é que a culpa paralisa enquanto a responsabilidade mobiliza. O culpado fica estagnado no erro, a remoê-lo, a martirizar-se, sem conseguir sair dali. O responsável olha para o erro, tenta compreendê-lo, e percebe ainda que se foi responsável por ele, também é responsável pelo reparo, ou pela mudança.

O culpado desespera quando vê como a sua casa está desarrumada e fica a maltratar-se por ter deixado chegar a este ponto, o responsável entristece-se com a desarrumação a que se permitiu chegar, mas agarra em si próprio e começa peça a peça a arrumar.

 

Quando der por si a fazer coisas recorrentes de que não gosta, de que se ressente, obrigue-se a fazer esta mudança, transforme a culpa em responsabilidade, dê-se espaço e estímulo para reparar o erro, para mudar. E não se apresse demais, as mudanças e as reparações levam o seu tempo.

publicado às 10:16

As nossas necessidades psicológicas vitais

por oficinadepsicologia, em 11.03.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

 

Mahatma Gandhi identifica 7 erros da humanidade:

  • Riqueza sem trabalho;
  • Prazer sem consciência;
  • Conhecimento sem carácter;
  • Comércio sem moralidade;
  • Ciência sem humanidade;
  • Adoração sem sacrifício;
  • Política sem princípios.

 

De forma semelhante, o professor e psicoterapeuta António Branco Vasco identifica 7 pares de necessidades psicológicas vitais, para as quais deixo o alerta:

 

  • (Prazer - dor) Procura o prazer, mas tolera a dor e percebe o seu significado;
  • (Proximidade - Autonomia) Equilibra-te entre a proximidade e a autonomia;
  • (Produtividade - Lazer) Investe nas coisas, produz, mas não te esqueças de o complementar com momentos de lazer, relaxamento;
  • (Controle - cedência) Controla o que está ao teu alcance, mas não te esqueças de ceder quando é preciso;
  • (Actualização/Exploração - Tranquilidade) Procura o novo, actualiza-te, sem descurar a tranquilidade de desfrutar do que já é teu;
  • (Coerência do self - Incoerência do self) Procura ser coerente contigo próprio, sabendo ao mesmo tempo tolerar incoerências ocasionais;
  • (Auto-estima - Auto-crítica) E estima-te sempre, mas identifica os teus erros e tolera e aprende com as tuas insatisfações pessoais.

publicado às 19:40

Sobre a assertividade

por oficinadepsicologia, em 23.02.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Conhece o termo assertividade? Tem certeza que tem uma noção correcta do seu significado? Passo a esclarecer.

De uma forma simples, assertividade é a capacidade social de afirmar os próprios direitos não violando, ao mesmo tempo, os direitos dos outros. Tenho contudo a sensação que uma amostra significativa de pessoas apreendeu bem a parte da afirmação dos direitos do próprio, mas como que apagou o lado que contempla o respeito pelos direitos dos outros, e portanto associa assertividade a uma postura egoísta e arrogante, chegando a comentar “sou demasiado assertivo e isso causa-me problemas”.

O que é afinal a assertividade?

 

Eu gosto de a colocar num contínuo entre os polos da passividade e da agressividade. Se delinearmos uma linha com a passividade num extremo e a agressividade no outro, o comportamento assertivo passeia-se por esta linha, por vezes aproxima-se mais de um extremo, por vezes mais do outro, mas nunca chega a atingir nenhum dos polos, nem fica indefinidamente na mesma posição.

O que é que justifica a mudança de posição na linha?

 

A situação.

A assertividade envolve expressar pensamentos, sentimentos e crenças de maneira directa, clara, honesta e apropriada ao contexto. Ou seja, num contexto tranquilo, sem grandes ameaças à minha identidade, aos meus direitos, o comportamento adequado (assertivo) aproxima-se mais do polo da passividade, numa postura receptiva, de permissão da proximidade do outro, com as defesas em baixo; num contexto hostil, em que os meus direitos são ameaçados e a minha identidade é desrespeitada, o comportamento adequado (igualmente assertivo porque de acordo com a situação) aproxima-se mais do polo da agressividade, em que as minhas defesas estão alerta e coloco limites à proximidade do outro no sentido de me proteger.

 

Mas voltemos ao comentário “sou demasiado assertivo e isso causa-me problemas”. O que é que isto pode significar? Das duas uma, ou não estou a ser assertivo, numa postura de defender os meus direitos mas já de uma forma agressiva por não estar a contemplar os direitos do outro, ou estou perante um outro particularmente frágil, que se sente atacado sem o ser e que responde de volta atacando.

Um terceiro cenário, para o qual peço especial atenção, é uma combinação dos dois, em que o outro se sente atacado não o sendo, eu me ressinto do ataque dele em resposta, e respondo eu atacando também. Neste jogo de lutas não se preocupe em perceber quem começou, assuma a coragem de lhe por um ponto final, protege-se a si e ao outro, aí então está a ser assertivo.

publicado às 12:20

O Sr Homeostase e o Sr Homogénese

por oficinadepsicologia, em 15.02.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Eu sei, eu sei, dois grandes palavrões; mas passo a apresentá-los.
De uma forma simplista, poderíamos dizer que há duas motivações base para procurar terapia: “Ajude-me a voltar a ser o que era”, ou “Não gosto da minha vida, ajude-me a mudá-la”.


O primeiro discurso é o discurso do Sr. Homeostase, que procura recuperar o equilíbrio inicial, voltar ao estado de base; o segundo discurso é o discurso do Sr. Homeogénese, que também procura equilíbrio, mas integrando as novas exigências/desafios e as novas conquistas numa nova versão de si.


De certa forma o Sr. Homeoestase anda à procura de recuperar o passado, e o Sr. Homeogénese anda a tentar preparar-se para o futuro.
Ao Sr. Homeoestase eu tenho o cuidado de alertar que voltar ao que era implica continuar vulnerável ao tipo de coisas que o trouxeram ao que está hoje. Ao Sr. Homeogénese eu tenho o cuidado de sensibilizar para o risco de perder o rumo caso não integre o que ficou para trás.
Com qual dos senhores gosto mais de trabalhar? Eu cá confesso que eu gosto mesmo é quando eles se cruzam na sala de espera e começam a trocar ideias. Porque é quando me chegam preparados para integrar o passado numa narrativa presente que os ajude a construir um futuro diferente, que eu sei que chegaremos a bom porto.

publicado às 12:54

Sobre a autonomia

por oficinadepsicologia, em 22.01.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Recentemente li o livro A traição do Eu: O medo da autonomia no homem e na mulher de Arno Gruen (edição da Assírio & Alvim), e apercebi-me como de facto tendemos a gerir as nossas vidas de acordo com uma ideia de autonomia incongruente com o que ela realmente implica.
Segundo o autor, “a autonomia é o estado de integração em que uma pessoa se encontra em plena concordância com os seus sentimentos e as suas necessidades. (…) Da autonomia faz parte a capacidade de ter um Eu alicerçado no acesso a sentimentos e necessidades genuínos.” (págs. 17 e 18).


Paradoxalmente, geralmente associamos a pessoa autónoma à pessoa independente, controlada, bem adaptada socialmente, por muito que esta pessoa possa não reconhecer qualquer sentimento de tristeza, zanga, medo, ou qualquer necessidade de proximidade, de conforto.
Ao colocarmos este peso na ideia de autonomia, colocamo-nos necessariamente em conflito entre um Eu ideal (supostamente autónomo porque independente e controlado), favorecido pela sociedade ocidental actual, e o Eu real (genuinamente autónomo, mas não reconhecido socialmente como tal), que por vezes tem dores, que tem fragilidades, que precisa de proximidade e de conforto. Estranhamente, este é o Eu socialmente rotulado como fraco e dependente.


Assim, quando puxamos o suposto lado da autonomia (portanto o independente e controlado), reprimimos a possibilidade de satisfação no contacto com a nossa realidade interna e a possibilidade de conforto na interdependência (no equilíbrio entre a proximidade e o isolamento). Criamos a fantasia que ou somos “autónomos” e fortes ou somos dependentes e fracos, sem percebermos que proximidade e autonomia não são incompatíveis, eu não preciso de me isolar para ser autónomo e posso retirar conforto na proximidade sem me tornar dependente.
É muito importante percebermos que a nossa saúde mental não passa por nos adaptarmos às expectativas dos outros negligenciando-nos a nós próprios; a nossa saúde mental passa por encontrarmos, mantendo-nos próximos aos outros, um espaço para reconhecermos e cuidarmos das nossas emoções e necessidades.

publicado às 10:34

Sobre a ansiedade

por oficinadepsicologia, em 14.01.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Go to the heart of danger for there you will find safety
[Vai ao coração/âmago do perigo, lá encontrarás segurança]
Provérbio Chinês

Proponho uma reflexão sobre o que são e de onde vêm as perturbações da ansiedade.
A ansiedade é matreira: dirige a nossa atenção para as nossas sensações corporais ou para estímulos externos percepcionados como perigosos, para esconder o significado implícito deste medo exagerado. A pessoa ansiosa como que foge de si própria, desenvolve estratégias de evitamento que se materializam nos sintomas de ansiedade e, neste esforço de evitar o contacto com as suas feridas psicológicas, vai reforçando mais e mais a sua percepção negativa de si.

Como é que se desenvolve uma perturbação da ansiedade?
Cada vez mais se reconhece que as perturbações da ansiedade têm origem em experiências de vida dolorosas: experiências traumáticas, traições por outros significativos, respostas ineficazes a acontecimentos de vida, entre outros. Estas experiências criam feridas do self, percepções negativas de si, como incapaz de lidar com os desafios da vida, e estas feridas são tão poderosas, estão tão presentes na vida das pessoas (embora de uma forma implícita, não consciente), que as tornam hipersensíveis a qualquer situação no presente que se assemelhe de alguma forma a estas memórias dolorosas, que active a ferida. No esforço de prevenir a exposição a estas feridas, desenvolvem-se estratégias de protecção desadequadas, que são os sintomas mais visíveis da ansiedade.

Como é que se quebra este ciclo de sintomatologia ansiosa?
Apesar destes comportamentos de protecção desadequados trazerem algum alívio imediato por impedirem o contacto com as feridas, tendem a agravar o sofrimento por reforçarem a perspectiva negativa de si, como incapaz, desadequado, vulnerável…
Apesar do sofrimento imediato que acarreta entrar em contacto com as nossas feridas psicológicas e com as memórias dolorosas que lhes deram origem, é este contacto, no seio de uma relação terapêutica segura e apoiante, que permitirá atender a elementos adaptativos que não foram anteriormente processados e recuperar uma imagem de si mais positiva, capaz de mobilizar recursos para lidar de forma eficaz com os desafios da vida.

A Oficina de Psicologia reabre este mês grupos terapêuticos que se têm mostrado muito eficazes no tratamento de perturbações de ansiedade, temos grupos de ansiedade generalizada, de pânico e de fobia social. Consulte a nossa página e solicite a integração no grupo que mais se adequar à sua problemática. Não adie mais o seu bem-estar.

publicado às 11:08

Perda ou transformação?

por oficinadepsicologia, em 14.12.11

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

Na minha prática clínica tenho-me deparado com uma grande dificuldade dos meus clientes em expressarem desacordo, mágoa, ressentimento, ou agirem de formas contrárias àquilo que sentem que são as expectativas ou desejos de outros significativos.

 

Ao explorar o que é que receiam que aconteça se se expressarem de forma congruente com o que estão a sentir, surge frequentemente o medo de perder o outro, que o outro não suporte a crítica ou o desacordo e que haja uma ruptura na relação.

 

Um trabalho útil com estes clientes é treinar a assertividade, explorando formas de nos afirmarmos perante estes outros significativos de uma forma cuidadosa que melindre o outro o menos possível; mas a realidade é que estes clientes não deixam de ter algum fundamento no seu receio, frequentemente os primeiros movimentos de auto-afirmação são de facto mal recebidos do outro lado.

 

A reflexão que vos venho propor é até que ponto é que esta reacção menos positiva do outro implica necessariamente perda ou, pelo contrário, potencia transformação da relação.

 

Não sejamos utópicos, se introduzo uma dinâmica nova na relação (por exemplo expressar mágoa por a minha opinião não ter sido levada em conta numa decisão com implicações para os dois), não posso esperar que o outro mantenha a mesma postura, ele terá que digerir a novidade e precisaremos os dois de um período de ajustamento à nova dinâmica, ou de um período de negociação de uma terceira dinâmica, construída em conjunto, que responda de forma mais equilibrada às necessidades de ambos. Ou seja, preciso dar espaço ao outro para que ele me devolva o ponto de vista dele sobre a situação que desencadeou o problema, como é que ele lida com esta mudança no sistema que eu estou a propor, e que condições é que ele precisaria ter satisfeitas para conseguir de forma mais tranquila responder à minha necessidade (por exemplo, o outro poderia devolver que não se tinha apercebido que eu tinha uma opinião diferente, mas que de facto era importante para ele que eu estivesse confortável com a decisão e precisaria por isso que eu passasse a expressar as minhas opiniões com mais clareza para ele perceber que há ali uma opinião contrária que precisa ser levada em conta).

 

E pensarão: “mas comigo isto não funciona assim, o outro não vai reagir tão bem”. Talvez tenham razão, é provável que a primeira reacção seja de defesa e de desagrado pelo comentário, mas lá está o tal período de ajustamento e de negociação, em que o treino de assertividade referido inicialmente tem um papel importante no mantermo-nos afirmativos das nossas necessidades e direitos por um lado, e ao mesmo tempo abertos a perceber o ponto de vista do outro, que elementos é que estão a dificultar a compreensão da mensagem de ambos os lados, e como é que podemos atingir um equilíbrio entre aquilo de que cada um não abre mão e no que estamos disponíveis para ceder.

publicado às 10:37

A tristeza e a depressão

por oficinadepsicologia, em 06.12.11

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Só se deprime quem não se deixa entristecer

António Branco Vasco

 

Joana Fojo Ferreira

Esta é sem dúvida uma das frases marcantes do meu percurso académico e a minha experiência clínica tem confirmado todos os dias quão verdadeira ela é.

 

Talvez soe estranho, estamos habituados a associar a depressão à tristeza e a temer que se nos permitirmos entristecer podemos acabar a deprimir. Por lógico que possa parecer o raciocínio, é na realidade falso.

 

A tristeza é uma emoção com funções adaptativas muito importantes: por um lado mostrarmos aos outros que precisamos de conforto e auxílio no sentido de reduzir o nosso sofrimento psicológico, por outro recolhermo-nos em nós próprios no sentido de ultrapassar as nossas perdas significativas. Ambos estes movimentos são fundamentais para recuperarmos o equilíbrio e voltarmos a investir nas nossas vidas.

 

A depressão é como uma panela de pressão, cheia de tristeza a ferver e sem que aliviemos o pipo para deixar alguma sair. Ao não nos permitirmos entristecer, não libertamos alguma desta energia dolorosa mas real, e ficamos inundados por ela; no esforço de não a deixarmos sair, bloqueamos todas as saídas, que são também as entradas, e a vida deixa de fluir.

 

Quando a tristeza lhe bater à porta, e ela bate com alguma frequência, dê-lhe alguma atenção, dê-lhe algum colo, procure algum conforto junto de quem lho saiba dar. Acredite que não vai deprimir.

publicado às 14:11

O que é isto do amor?

por oficinadepsicologia, em 06.11.11

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

No programa da RTP2 Onda-Curta passaram uma curta-metragem intitulada “Tout le monde dit je t’aime” (Toda a gente diz amo-te) que reflecte de uma forma muito interessante sobre o significado do amor aos 16 anos.

E fui ficando a questionar-me: O que é isto do amor? Como é que se lida com o “amo-te”?

 

O giro da curta é que mostra duas adolescentes com perspectivas muito diferentes do “amo-te”: uma que acredita que a expressão tem significado e é forte, a apaixonada, que vive ela própria este sentimento; e a descrente, a quem nunca o disseram, e que defende que “amo-te” é como uma palavra mágica – não significa nada, toda a gente o diz, e ainda por cima tem a particularidade de encurralar, afinal de contas o que é que se responde a um “amo-te” que não seja “eu também”? E depois quando é que se pára? Temos que dizer “amo-te” para sempre?

 

Como é que se sabe que se ama? Quando é que faz sentido dizê-lo? Há um tempo mínimo antes do qual é parvoíce? E se se espera demais?

Não tenho resposta a estas questões. O que tenho é a imagem destas duas adolescentes a seguirem direcções opostas e a gritarem “Eu amo-te” uma à outra, à medida que se afastavam, com um sorriso, um prazer que transbordava por todo o corpo.

E a realidade é que parece que, mais do que um pensamento, e estejamos nós a dizê-lo ou a recebê-lo, “amo-te” é um sentimento que percorre todo o nosso corpo com um misto de aperto e de euforia. “Amo-te” lê-se no corpo mais do que na mente. E é de facto mágico, como dizia a descrente, mas um mágico diferente, tão mágico que alguns o tememos, muitos o desacreditamos, mas todos nos deliciamos quando o recebemos daqueles que também nós amamos.

publicado às 10:26

Magoar ou entristecer?

por oficinadepsicologia, em 24.10.11

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Joana Fojo Ferreira

“Não consigo lidar com o facto de se lhe expressar o que sinto vou magoá-lo/a”

 

A ideia de que expressar emoções desagradáveis ao outro, sobre o outro, implica magoá-lo é algo que os meus clientes me trazem com frequência para as sessões.

 

A possibilidade de magoar o outro é tão aversiva que parece haver uma preferência por anular a expressão das próprias emoções, mesmo que isso acarrete incoerência e sofrimento para o próprio.

 

Esta dificuldade dos meus clientes em serem coerentes com as suas emoções no relacionamento com os outros mexia particularmente comigo e debrucei-me a reflectir sobre o que é que me desconcertava nesta dificuldade tão comum.

 

Comecei então a pensar, o que é isto de magoar o outro? Quando é que magoamos o outro? Magoar parece-me implicar uma certa desconsideração, uma forma descuidada de tratar o outro, seja no adoptar de uma postura agressiva, ou no adoptar de uma postura negligente. Diria que magoar implica não considerar o outro na equação. E a realidade é que não era isto que eu via tendencialmente nos meus clientes, pelo contrário, parecia-me que equacionavam tanto o outro que se esqueciam de si próprios.

 

E comecei a pensar… será de facto que magoamos os outros quando partilhamos, de uma forma cuidada, as nossas opiniões divergentes ou as nossas emoções menos agradáveis perante eles? E surgiu-me esta diferença: magoar ou entristecer?

Se me apontam características menos positivas minhas, eu fico triste; se me dizem “já não sinto por ti o que sentia”, eu fico triste; se não partilham a mesma opinião que eu sobre um tema que me é querido, eu posso ficar triste também; mas magoada?

Quando, por tanto engolirem o que pensam a meu respeito, explodem um dia e me mostram os meus defeitos de forma agressiva, eu fico magoada; quando me dizem “gosto de ti da mesma forma” mas toda a expressão não verbal, nomeadamente o afastamento ou a irritação, mostra o contrário, eu fico magoada; quando, por terem uma opinião diferente da minha num tema importante para mim, criticam a minha opinião de forma desrespeitosa, eu fico magoada.

 

A diferença não está em expressar ou ocultar o que sentimos, a diferença está no cuidado que temos perante o outro quando o expressamos.

E talvez alguns me possam dizer: “mas eu também não quero entristecê-lo/a”. Eu aí diria que podermos dar atenção às nossas tristezas e ficar a dar-lhes algum colo quando surgem é essencial para arrumarmos as nossas dores e podermos então abrir-nos a novas possibilidades. Por outro lado, ao ocultar verbalmente o que a nossa expressão corporal não consegue esconder, podemos estar já a magoar.

publicado às 09:30


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