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Olhar o luto

por oficinadepsicologia, em 16.08.12

Autora: Ana Beirão

Psicóloga Clínica

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Ana Beirão

Há quem diga que a única certeza na vida é a morte, vista como o fim de um percurso natural. É sem dúvida uma certeza apesar de ser uma verdade que a maior parte de nós custa a aceitar, principalmente quando a pessoa que se perde é muito importante. Desde sempre que o Homem tem tentado lidar com  a ideia da morte, na mitologia grega, por exemplo, a alma do defunto era levada, em segurança pelo barqueiro Caronte, através dos pântanos do Aqueronte para a margem do Rio dos Mortos. Como parte do ritual funerário, os familiares da pessoa falecida, colocavam na sua língua uma moeda de forma a pagar o transporte para o outro lado do rio. Havia a necessidade de sentir que o falecido era protegido e que poderia depois descansar.

 

Tratava-se a pessoa que falecera com o cuidado necessário, mas e os que ficaram? Como é que se tratam aqueles que ainda vivem e que sofrem com uma perda. A maneira como enfrentamos a morte e o luto é influenciada pela sociedade em que vivemos, pela religião e cultura, assim como pelas nossas percepções pessoais. Todos vivemos separações e perdas mas o luto é um processo pessoal de cada um, tendo em conta a importância da pessoa que se perde, a maneira como olhamos e lidamos com essa perda e o modo como nos adaptamos a essa ausência. O luto é visto como um conjunto de reacções diante de uma perda significativa que provocará alterações na vida da pessoa, como na actividade do quotidiano, na segurança, no contacto, na percepção do futuro, no relacionamento com os outros. O processo de luto prolonga-se no tempo, é individual, mesmo quando se trata de uma perda em contexto familiar, e implica reajustar a vida. Pode desenvolver-se de uma maneira normal ou patológica (por exemplo, quando o luto é negado durante muito tempo). Se o processo for normal, este toma o seu próprio ritmo, evoluindo naturalmente, com uma duração aproximada de seis meses a um ano. As reacções passam pela falta de vontade para viver o dia-a-dia, grande desinteresse pelo mundo exterior, sentimento de incapacidade de voltar a amar de novo, dificuldade em desenvolver toda e qualquer actividade que não esteja associada à memória de quem se perdeu. Os sentimentos são diversos e podem passar pela tristeza profunda, angústia, descrença, raiva, sentimento de culpa, depressão, ansiedade, recriminação, fadiga mental, confusão, a sensação que a pessoa que se perdeu continua presente, entre outros.

 

O luto passa por um ciclo que se divide em três fases complexas, que nem sempre são evidentes: a Fase da Crise, a Fase da Desorganização e a Fase da Organização.

Na primeira fase a pessoa tenta processar o choque da notícia, que vai depender da morte ter sido esperada ou súbita. As expressões emocionais podem ser intensas e por vezes inclui-se uma negação emocional, rejeitando o que é dito. Os sentimentos passam por insegurança, desejo de vingança, raiva, culpa. Na segunda fase, é se invadido por um sentimento de vazio e desorientação, como que se a vida perdesse o sentido. Aqui manifesta-se o desespero, a inquietação, as insónias, as preocupações e a saudade do outro.  Na terceira fase, começa-se a processar a aceitação da perda definitiva e o equilíbrio físico e psicológico começa a surgir. O recordar já não é doloroso, a pessoa perdida é incluída na nossa memória e história de vida e a perda ultrapassada.

 

O luto pode ser muito doloroso e apresenta uma série de mudanças psicológicas e psicossociais, alterando os comportamentos e padrões normais de funcionamento. Se sentir que este é um processo difícil de superar sozinho ou a situação que enfrenta é mais complexa do aqui relatada, então peça um aconselhamento especializado e partilhe a sua dor e preocupações. Poderá sair deste processo com uma maior confiança em si e uma maior aptidão para lidar com novas situações de luto.

publicado às 15:07

A dupla face da ansiedade

por oficinadepsicologia, em 14.08.12

Autora: Marta Gonçalves Porto

Psicóloga Clínica

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Marta Gonçalves Porto

A ansiedade pode ser definida como um estado emocional em que a pessoa se sente de forma desagradável, alarmada e tensa, na expectativa de que qualquer coisa desagradável e indefinida lhe vai acontecer. O indivíduo sente-se inseguro e indefeso perante uma ameaça que não consegue identificar. Por outras palavras, é um estado de alarme e medo relativamente a algo que é percepcionado como perigoso.

Assim, a ansiedade resulta de uma antecipação do futuro, impedindo o sujeito de experienciar o presente.

 

A inquietação psíquica característica dos estados ansiosos é acompanhada por uma inquietação motora (tiques ansiosos) e sintomas físicos (taquicardia, palpitações, dificuldade respiratória, tremores, sudação, náuseas e vómitos, entre outros).

 

Quando estamos a abordar a temática da ansiedade, podemos verificar a existência de duas formas deste estado emocional: ansiedade normal e ansiedade patológica. A primeira, que é uma resposta natural à percepção de ameaça, encontra-se associada a acontecimentos e é explicável em função do estímulo que a desencadeia. Outra das características da ansiedade normal prende-se com o seu carácter reactivo e esporádico, não acarretando repercussões na eficiência cognitiva e no funcionamento corporal. Possui uma função mobilizadora e adaptativa que permite criar estratégias de resposta perante os problemas. Neste sentido, podemos dizer que a ansiedade normal não requer tratamento, dada a sua natureza lógica e cronológica.

 

Já no que se refere à ansiedade patológica deparamo-nos com uma desproporção intensa entre o estado emocional do sujeito e a importância do acontecimento, ou, então, com uma resposta sem relação com estímulos externos, sendo persistente e repetitiva. A ansiedade patológica, contrariamente à ansiedade normal, afecta a eficiência cognitiva (diminuição no rendimento da memória, atenção e pensamento), faz reviver situações passadas também vividas como ameaçadores na altura e acarreta repercussões corporais significativas.

 

Tendo em consideração as diversas repercussões desorganizadores do mundo interno e relacional do sujeito, a ansiedade patológica requer tratamento psicoterapêutico, sendo que quanto mais precoce for a intervenção, menos consequências negativas provocará na vida do indivíduo.

publicado às 16:41

Diagnósticos, para que vos quero?

por oficinadepsicologia, em 11.08.12

Autora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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Mais importante do que aquilo que tem é aquilo que é

António Branco Vasco

 

Joana Fojo Ferreira

 

Habitualmente, num registo médico mais tradicional, quando temos um problema de saúde procuramos um diagnóstico que nos ajude a identificar o problema e nos oriente para o tratamento adequado. O problema, apesar de afectar o paciente, é visto como exterior a ele e o tratamento é dirigido ao problema e não à pessoa.

 

Num registo psicológico as coisas são um bocadinho diferentes, não deixa de fazer sentido procurar “diagnósticos”, mas são tendencialmente diferentes dos a que estamos habituados num registo médico; num registo psicológico muitas vezes parte do problema está relacionado com a nossa forma de ser e estar na vida, estamos portanto muito mais implicados nele, não é simplesmente algo exterior a nós do qual facilmente e recorrendo a meios exteriores nos possamos livrar, e consequentemente a intervenção é dirigida menos ao problema mais visível (os sintomas) e mais à pessoa que o manifesta.

 

Enquanto muitas vezes num registo médico a ênfase é dada à identificação dos sintomas e o tratamento é a eles dirigido, apesar de progressivamente se contemplarem hábitos e estilos de vida do paciente, num registo psicológico, mais importante do que o sintoma que a pessoa tem é aquilo que a pessoa é, ou seja, o sintoma não é o problema mas o reflexo do problema e é na pessoa em si que podemos identificar tanto o problema como a solução. Num diagnóstico psicológico, além da identificação dos sintomas, entram então factores como o modo de funcionamento da pessoa, a sua história de vida e de desenvolvimento com realce para memórias marcantes ou por intensidade ou por frequência, e situações presentes que possam ter despoletado o problema ou tê-lo intensificado.

 

Habituados que estamos ao registo médico mais tradicional, é frequentemente difícil sair dele e, por um lado, reconhecer a necessidade de identificar e trabalhar os factores psicológicos que estão a intervir na manifestação do problema e, por outro, reconhecer progressos, que muitas vezes começam a surgir antes do sintoma que o trouxe a terapia desaparecer.

 

Dada a preponderância da pessoa sobre o sintoma, o trabalho psicoterapêutico passa muito por reconhecer de que forma é que a maneira como vivo a minha vida, fruto do que a minha história incutiu ou determinou, e influenciada pelas minhas circunstâncias actuais de vida, contribuiu para o surgimento ou exacerbação da sintomatologia. Esta consciência permite progressivamente abrir mão de velhos hábitos, questionar “heranças psicológicas” que nos foram incutidas como necessárias mas que nos apercebemos que no presente de nada nos servem e contribuem mais para o problema do que para a solução, e reconhecer necessidades fundamentais que precisamos procurar satisfazer para nos sentirmos bem connosco e com a nossa vida.

 

Pode parecer estranho, mas são estas conquistas que permitem de facto que no final da linha os sintomas que apresentávamos já não tenham problemas para sinalizar e que gradualmente, quase sem nos darmos conta, deixem de estar presentes ou ter um impacto tão forte nas nossas vidas.

 

No que a problemas de foro psicológico diz respeito, não procure a solução no sintoma, procure-a em si. Cuide de si!

publicado às 14:20

Perdão ou compaixão: eis a questão

por oficinadepsicologia, em 08.08.12

Autora: Susanne Marie França

Psicóloga Clínica e Hipnoterapeuta

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Susanne Marie França

Se queres que os outros sejam felizes, pratica a compaixão. Se queres ser feliz, pratica a compaixão."(Dalai Lama)


Sem me aventurar pelo terreno movediço e polémico da religião, gostaria de sugerir uma pequena reflexão sobre os conceitos de perdão e compaixão.

 

Há uns largos meses atrás deparei-me com um programa na televisão acerca do efeito terapêutico do acto de perdoar. Confesso que fiquei admirada ao perceber que as pessoas conseguiam nobremente perdoar as piores situações possíveis, e posteriormente emanar uma aura de calma e paz invejável.

 

Veio-me à memória uma paciente que tinha sido vítima de abuso sexual durante o período da infância e adolescência, e tinha conseguido com uma resiliência incrível, “colocar de lado” o trauma e construir uma carreira profissional solida, um casamento harmonioso e tido 3 filhos. Ninguém sabia do que se tinha passado na infância, uma vez que ela tinha conseguido sair da aldeia onde tinha sido criada, cortar relações com a família de origem e recomeçado a vida noutro local. No entanto, quando a sua filha mais velha, chegou à idade em que na sua infância os actos de abuso sexual tinham tido inicio, todo o seu passado, até agora um mundo invisível, como uma avalanche - “desabou” literalmente…  

Procurou terapia de modo a tentar encontrar uma solução pratica para este problema. Este “segredo” tinha que se manter privado, e ninguém, nem o marido, poderiam saber do que se tinha passado na infância. Sentou-se no consultório com a convicção de que tinha que perdoar os perpetuadores dos abusos infantis, e assim a situação ficaria resolvida, e ela poderia continuar com a sua vida.

 

Quando começámos a analisar o verdadeiro significado do acto de perdoar, apercebemos-mos da imensidão desta tarefa e da pressão que ela estava a impor a si própria. A crença assentava no pressuposto de que o acto de contrição resolvesse o trauma de longos anos de sofrimento, dor e culpa, quase que, esquecendo e desculpando o facto de que uma “criança” tinha sido repetidamente e inocentemente vitimizada, e consequentemente, privada de uma infância saudável.

 

De modo algum se está a afirmar que o acto de perdoar não é justo e nobre. O que se está a questionar é se será uma solução para crimes medonhos como este; e como se executa o acto de absolvição de culpa, a quem nos magoou, traumatizou e moldou uma infância e adolescência?

Na verdade, cada caso é um caso, e neste em particular, foi efectuada uma longa e dolorosa viagem ao passado, no sentido de reconstruir a confiança na vida, nos outros e em nós. Decidimos em terapia “colocar de lado” o acto de perdoar e dedicarmos-mos ao acto de compaixão.

O dicionário “Webster” define a compaixão como: consciência profunda do sofrimento do outro aliado ao desejo de aliviá-lo (…).  Esta definição por si parece implicar um processo dinâmico de empatia, ganho de consciência e cura. Foi iniciado o processo de reconhecimento do sofrimento desta “criança”, e trilhado um caminho longo, doloroso mas reparador, na direcção da cura e transformação.

 

A paciente criou passo a passo um mundo interior repleto de carinho, segurança e brincadeira. Construímos um local onde ela pudesse se sentir totalmente segura, estar acompanhada pela natureza e animais, e transportámos para lá igualmente o eu “adulto”, para que pudesse partilhar e relembrar como a infância, pode e deve, ser cor-de-rosa, risonha e feliz.

 

Posso estar errada, mas sinto que a compaixão, neste caso, foi um acto mais terapêutico e estruturador.

E quem sabe, se a compaixão pode ser um caminho seguro e firme, que por último, nos leve ao perdão?

publicado às 09:08

Ecos do vazio dentro de nós

por oficinadepsicologia, em 06.08.12

Autora: Filipa Jardim Silva

Psicóloga Clínica

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Filipa Jardim Silva

Por entre o frenesim dos dias que correm uns atrás dos outros estamos permanentemente acompanhados. Se formos de transportes públicos para o trabalho sentimos o calor físico de tanta companhia em espaços por vezes insuficientes, se formos de carro acompanham-nos os locutores dos programas de rádio de início e fim de dia, se formos a pé o ruído dos carros impera. Quando estamos em casa a televisão está ligada e enche o espaço, quando estamos no trabalho esquecemo-nos do que é o silêncio por entre telefonemas, reuniões e solicitações permanentes. E depois as relações: profissionais, de amizade, amorosas e familiares. Vozes que nos ocupam o espírito, convites que nos preenchem a agenda, amor que nos aquece a alma.

 

Até que ao virar da esquina eis que, um dia, surge o vazio. Sem aviso prévio, sem ter sido convidado instala-se súbita e inesperadamente nas nossas vidas. Reclama por um espaço dentro de nós que nos ecoa estranheza, desconforto, medo. Por vezes chega pela mão de uma morte, de uma catástrofe natural ou de um acidente, outras faz-se acompanhar pelo um fim de uma relação, por uma traição, por um despedimento. Apanha-nos quase sempre de surpresa este vazio que ecoa pontos de interrogação e outros tantos de exclamação. A sensação inicial de atordoamento é frequente, à procura de marcos de referência para uma realidade distinta da habitual, à procura de chão. E por vezes tem de se caminhar sem saber bem por onde, mas caminha-se, um passo de cada vez, provoca-se movimento. Mais à frente abastecemo-nos de zanga, de um sentimento de injustiça que nos rasga de dentro para fora, que nos faz duvidar se seremos novamente capazes de confiar na vida e de nos entregarmos por inteiro ao presente. Achamos que não, mas depois reconsideramos. Por vezes rasgam-se horas, umas atrás das outras, hipotecam-se dias e anulam-se momentos. E a saudade, do que foi e já não é, do calor que já se extinguiu, da proximidade que se perdeu, da construção que ruiu. Numa outra estação, mais adiante e mais serenos, permitimo-nos finalmente a estar com o espaço vazio dentro de nós. Mal ou bem, já não nos é estranho, já não o questionamos nem nos revoltamos contra ele. Começamos simplesmente a conhecê-lo, a medir-lhe os limites, a ouvir os seus ecos, a senti-lo na nossa pele, a apreciar os seus efeitos em nós, agora diferentes também. Por vezes este vazio possibilita mudanças que a falta de espaço interna aprisionava. Mudanças que não existiam num horizonte próximo nem como necessárias ou benéficas. Estar-se preenchido é positivo, mas por vezes entra-se num registo de piloto automático em que os braços e vozes dos outros nos guiam, e deixamos de questionar, simplesmente vamos na corrente, que é certa e faz sentido.

 

Importa por isso procurarmos estar connosco mesmos, percebermos o que é nosso e o que é dos outros num trabalho de individuação persistente, de fortalecimento do que realmente somos sozinhos e não apoiados ou ao lado dos outros. Importa guardarmos espaço para o vazio de alguns momentos, um vazio imprevisível e criativo, que pode dar balanço para fora e para a frente. Importa testarmos limites e nos colocarmos em posições algo desconfortáveis de vez em quando para não perdermos o hábito de conduzirmos em piloto manual, sem instruções e com fraca visibilidade.

 

A vida tem muito de imprevisível, o que tem tanto de fantástico como de assustador. Cabe-nos a nós nos treinarmos no dia-a-dia para que em alturas de mudança súbita dos ventos consigamos fazer frente às adversidades, superar obstáculos e construir novos caminhos.

publicado às 17:50

Ui, é psicossomático!

por oficinadepsicologia, em 03.08.12

Auora: Joana Fojo Ferreira

Psicóloga Clínica

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“Isso é psicossomático, é da tua cabeça”

 

Joana Fojo Ferreira

Com o maior reconhecimento de que a nossa saúde é afectada não só por factores biológicos mas muito também por factores psicológicos e sociais, o termo psicossomático tem vindo cada vez mais a fazer parte do nosso vocabulário habitual. Apesar da mais valia do reconhecimento destes factores adicionais, preocupa-me a forma como por vezes o termo psicossomático é utilizado e os mitos que lhe estão associados. A frase em itálico no início do texto é exemplo disso.

 

Mas comecemos por definir o termo:

Dizer de uma manifestação de doença ou mal-estar que é psicossomático significa que na origem do problema, além de possíveis causas ou influências biológicas, estão também causas psicológicas e/ou sociais. O termo psicossomático não pretende portanto negar ou desvalorizar o sintoma físico mas integrá-lo/contextualizá-lo na história ou fase de vida da pessoa e dirigir a intervenção para o reconhecimento dos factores psicológicos e/ou sociais que poderão ter contribuído para despoletar o problema e que o poderão estar a manter.

 

Pensemos então na frase em itálico: “Isso é psicossomático, é da tua cabeça”. Colocada desta forma, a frase desvaloriza o sintoma e culpabiliza a pessoa que o manifesta; a ideia de “é da tua cabeça” implica que o problema não existe, é uma invenção mental que a pessoa criou. A consequência é a pessoa sentir-se humilhada, incompreendida, incompetente e profundamente sozinha na resolução do problema. O que começou por ser uma tentativa de apaziguamento: “isso não é nada, não tens nenhum problema físico”, torna-se na realidade mais angustiante para a pessoa, que se vê com sintomas que ninguém parece saber justificar e a ter que lidar com um sofrimento que os outros parecem minimizar.

 

É de facto importante desmistificarmos a ideia de que psicossomático significa que não existe. Os sintomas que a pessoa apresenta, mesmo que não tenham à partida justificação biológica para se estarem a manifestar, são reais, têm implicações reais na vida das pessoas, causam sofrimento real e não surgiram do nada; se não há causas físicas que por si só justifiquem o problema, existem no entanto causas psicológicas e/ou sociais que precisam ser desvendadas e trabalhadas para que deixem de se manifestar fisicamente de forma tão exacerbada.

 

Perante uma crise de pânico, por exemplo, os sintomas de falta de ar, taquicardia, sensação de desmaio estão de facto lá; se não significam problemas de coração ou do sistema respiratório, podem sinalizar contudo uma situação de vida que está a ser dolorosa e não está a ser processada, ou uma história de vida com situações passadas mal resolvidas que entretanto começaram a pesar demasiado, ou a necessidade de tomar decisões importantes e estar a ser demasiado difícil escolher, entre outos. São factores psicológicos mas são reais, existem e é importante cada vez mais reconhecermos que não temos um corpo e uma mente independentes mas que eles se influenciam mutuamente, que a nossa mente está integrada no nosso corpo e que por isso, além de lhe sentir a influência, também o influencia a ele.

 

Com isto mais claro, que perante manifestações físicas de problemas psicológicos, possamos cada vez menos dizer “isso é psicossomático, é da tua cabeça”, e cada vez mais reconhecer que “é psicossomático, portanto vamos procurar e resolver os factores psicológicos que estão a intervir”.

publicado às 11:49

Ser um bom ouvinte não chega!

por oficinadepsicologia, em 15.07.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

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António Norton

Existem pessoas que são extraordinários ouvintes! Ouvem qualquer um, sem ansiedade, com calma, com disponibilidade emocional, com afecto, com interesse. E não são psicólogos! Existem pessoas que, verdadeiramente, transmitem a sensação de que estão atentas ao que falamos e transmitimos.

 

Mesmo assim, alguns destes excelentes ouvintes não chegam a criar relações fortes de amizade.

Mas porquê? O que é que lhes falta? Ouvem tanto! Estão lá sempre!

 

É que ouvir não basta. Uma relação de amizade saudável vive da reciprocidade, da partilha, da troca de experiências, testemunhos, vivências. Uma relação de amizade não vive de monólogos em que se criam relações de cuidador.

Eu gostaria de reflectir sobre esta dinâmica relacional entre uma pessoa que está continuamente no papel de ouvinte e não é psicólogo!

Sublinho esta ideia de se ser um bom ouvinte e não se ser psicólogo.

 

Um psicólogo é uma pessoa que está disponível para ouvir uma outra, é alguém que apresenta uma enorme disponibilidade para estar com outro ser humano. Não é suposto um psicólogo falar sobre si mas antes estar disponível para o outro. E neste sentido não estamos a falar de uma relação de amizade, mas sim de cuidador.

 

Voltemos às relações ditas de amizade em que existe uma rigidez no papel de ouvinte...

Se alguém faz da sua relação com o outro uma dinâmica em que apenas ouve, então essa relação é desequilibrada. Não há reciprocidade e existe uma polaridade disfuncional.

 

O que faz uma pessoa ser, continuamente, ouvinte? Quando alguém se coloca no papel de ouvinte está disponível para o outro e sente-se valorizado por estar a ajudar. Quanto mais é reforçado e elogiado pela sua qualidade de bom ouvinte, mais tenderá a procurar esse espaço relacional no contacto com outro. Passa a criar relações de intimidade valiosas. De certo modo, começa a conhecer muito bem as pessoas que vai ouvindo.

 

Mas aqui coloco uma questão: Quem se coloca no papel de ouvinte conhece o outro, mas até que ponto o outro, conhece o ouvinte? Até que ponto o ouvinte não esconde a sua intimidade, as suas idiossincrasias, as suas necessidades pessoais, o seu mundo interno, ao colocar-se neste papel?

Ouvir é bom, mas também é bom que alguém nos ouça! Muitas vezes as pessoas que nas dinâmicas de amizade assumem o papel rígido de ouvintes têm medo de se expor, de revelar a sua pessoa. Simplesmente, quanto menos se expuserem também menos se darão a conhecer e a relação ficará cada vez mais desequilibrada.

 

Existe tempo para ouvir e tempo para ser ouvido! As relações de amizade criam-se com a partilha dos mundos de cada um, com a troca, a reciprocidade. Eu dou de mim e tu dás de ti. Tu conheces-me e eu conheço-te.

Se houver esta partilha, então haverá um espaço relacional, de conhecimento  e poder

-se-à estabelecer uma relação de amizade.

Se notar que apenas ouve e tem alguma rigidez na defesa deste papel – o do ouvinte – então, pense sobre o que o faz ser assim e quais as vantagens e desvantagens da sua atitude.

 

É bom ouvir, mas também é bom sermos ouvidos!

Pense nisto!

publicado às 12:38

Contos terapêuticos: Ep 2: A História do Afonso

por oficinadepsicologia, em 14.07.12

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

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Fabiana Andrade

Olá a todos!

Espero que tenham lido e gostado do primeiro episódio dos Contos Terapêuticos.

Para quem não leu o primeiro artigo, fica aqui a breve explicação desse projeto: os Contos Terapêuticos são um apanhado de várias temáticas que surgem diariamente nos consultórios da Oficina de Psicologia. Para falar dessas temáticas, criei personagens que representam muitas pessoas com quem trabalhei ao longo dos anos. Dessa forma, espero que o leitor se possa identificar com um ou mais personagens, e assim, beneficiar das estratégias utilizadas por eles.

Boa leitura!

 

Afonso tem 35 anos e chega ao consultório com queixas de ataques de pânico e fobias a lugares fechados.

É um homem inteligente, bem-sucedido profissionalmente, solteiro. Passa-me uma energia de tristeza, apesar de não existirem manifestações óbvias dessa emoção.

 

Ao longo das sessões começo a observar que Afonso tem crises de pânico em momentos específicos, mas vive também constantemente num estado de medo, tensão e antecipação.

Exemplos de situações descritas nas sessões:

- cada vez que tenho uma situação de maior pressão no trabalho, a minha cabeça começa a fazer a antecipação de vários cenários possíveis, fico muito ansioso e não consigo decidir qual a melhor solução

- sinto-me constantemente em piloto automático, já não sei o que me dá prazer; sinto-me preso, comprei uma casa e um carro mas não me sinto feliz, trabalho e ganho bem mas não gosto do que faço

 

Comecemos então com o primeiro exemplo. Afonso descreve que em situações onde se sente pressionado, o seu pensamento começa a divagar em direcção ao futuro, criando cenários possíveis.

 

Esse funcionamento é descrito muitas vezes por clientes que sofrem de ansiedade. Como antecipam vários cenários que não estão a acontecer, ficam muito indecisos e desligados da realidade, do que está de facto a acontecer.

 

Com o Afonso, trabalhamos com Meditação Mindfulness, que é exatamente a observação do que está a acontecer na realidade, quer ao nível do seu pensamento, como na sua emoção e no seu corpo.

 

Assim, sempre que se sentia numa situação de pressão fazia o seguinte exercício: parar, respirar algumas vezes profundamente e em vez de criar cenários possíveis, perguntar a si mesmo, “o que está a acontecer agora?”. Observava o corpo, o pensamento e a emoção e desses três canais, retirava a informação suficiente para tomar uma decisão.

 

Fazendo muitas vezes esse exercício, Afonso percebeu que a antecipação de cenários tinha na base uma grande insegurança nas suas próprias capacidades. Queria prever todas as possíveis situações para se sentir mais seguro. Quando ao ouvir as suas próprias pistas, no presente, se deu conta de que tinha nele a capacidade de decidir, as antecipações ficaram cada vez menos presentes.

 

Quanto ao segundo exemplo, o que eu sentia nas sessões com ele, era um desligamento, como se Afonso não tivesse acesso às suas emoções e por isso, elas não estavam a ser ferramentas necessárias para que ele pudesse fazer mudanças em sua vida.

Depois de perceber que era isso que estava a acontecer consigo, começamos a trabalhar numa lógica de transformar esse modo de ser.

Ao fazermos exercícios de visualização, relaxamento e meditação, fomos capazes de aceder às emoções de Afonso.

A primeira que apareceu foi a zanga. Começamos a falar com a parte de si que estava zangada, Afonso fechou os olhos, respirou e começou a imaginar um diálogo entre ele e a sua parte zangada:

Eu – Afonso, se essa zanga que surgiu pudesse falar, o que diria?

Afonso – diria que quer sair desse sítio, que está farta, que não gosta dessa vida!

De seguida, ao ter consciência da mensagem que estava a passar a si mesmo, Afonso sentiu tristeza.

Eu – e essa tristeza, o que diria?

Afonso – diria que não aguenta mais, parece que eu estou a servir à minha vida e não a minha vida a servir à mim. Não sei como sair disso, sinto-me preso.

Eu – Afonso, se pudesse dizer algo à essa parte de si que está triste, o que diria?

Afonso – vais conseguir, calma, estou aqui e vou te ajudar. Tu és forte..

Eu – além de força, que outros recursos tem?

Afonso – inteligência, sensibilidade, motivação..

 

Depois desse diálogo, Afonso não só sentiu uma série de emoções que estavam bloqueadas e que são uma mais-valia na orientação que pode dar à sua vida, mas também compreendeu que estava completamente “surdo” para si mesmo.

 

Que não “ouvia” quais são as capacidades que tem para gerir a sua vida e isso, o deixava constantemente inseguro. Como estava sempre inseguro, tentava ir buscar fora de si mesmo garantias de que tudo iria correr bem. Como recursos externos nunca nos dão garantias de nada, ele vivia num constante estado de insegurança e ansiedade, passando a estar preso num comportamento de “servir à vida”.

Ao conectar-se consigo mesmo, com as suas emoções e ferramentas, ele passou a gerir a sua vida de acordo com a sua felicidade, vivendo no presente e deixando que suas capacidades surgissem à cada novo desafio ou obstáculo.

 

Deixou de se sentir preso ao mundo que ele mesmo criava e que era apenas ilusoriamente seguro. Abdicou desse controle irreal e passou a ter o único controlo real, aquele que é possível a cada momento, que é controlo que temos sobre nós mesmos, sobre o que queremos ser e como queremos viver. O incontrolável já está resolvido à partida!

 

Com o trabalho de transformar um funcionamento ansioso, num outro que vive no presente, e com a conexão com as próprias emoções, Afonso conseguiu criar os recursos necessários para gerir a sua vida. Decidiu mudar e sair do trabalho que não lhe preenchia, para abrir seu próprio negócio. Protegeu-se de medos e pensamentos negativos que boicotavam seus sonhos e focou-se nas suas capacidades e recursos. Hoje é um homem mais feliz!

publicado às 10:03

Razão e emoção: o diálogo necessário

por oficinadepsicologia, em 13.07.12

Autora: Inês Mota

Psicóloga Clínica

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Inês Mota

Com frequência, em consultório, as pessoas consciencializam-se de que não é tarefa simples conhecerem o que sentem e saberem “falar” com elas próprias ou com os outros acerca disso, ou seja, a expressarem o que sentem.

 

A maneira própria como cada um de nós usa a “emoção” ou a “razão” pode estar fundada na forma como fomos aprendendo a usá-las no contexto da nossa família, e como foi perpetuada nas relações com o nosso grupo de amigos, na escola ou no trabalho.

 

De fato e remontando às nossas aprendizagens podemos verificar que o que nos foi sendo passado ao longo dos anos pode ser um pouco contraditório. Ora vejamos, com frequência ouvimos dizer “ aprende a confiar nos teus sentimentos e a seguir o teu coração” ao mesmo tempo que ouvimos também “não sejas demasiado emotivo/a ou irracional”. Assim, perceber e integrar estes ensinamentos nos assuntos do dia-a-dia e na direção a dar às relações não é de todo uma tarefa simples.

 

É também compreensível que muitas pessoas, sem a aprendizagem ou conhecimentos necessários para lidar com as “tempestades emocionais”, possam ser levadas a crer que a melhor forma será de fato controlá-las, podendo tornar-se exímias “problem solvers”, usando de forma recorrente a razão como via para resolver a maioria dos assuntos.

 

Para percebermos a ancestralidade deste debate relembremos o que já nos dizia Aristóteles:  “Toda a gente pode ficar zangada, isso é fácil, agora ficar zangado com a pessoa certa, na medida certa, no tempo certo, pelo propósito adequado e da forma adequada, isso sim já não é tarefa fácil. Pois isso envolve integrar coração e razão.”

 

Algo que nos pode ajudar nesta reflexão é saber que “Emoção” e “Pensamento (razão)” são fenómenos diferentes e que a nossa grande complexidade enquanto seres humanos é termos exatamente estas duas partes dentro de nós, este “eu emotivo” e este “eu racional”  que não estão necessariamente de acordo a maioria das vezes estando até muitas delas, em conflito.

 

A nossa parte mais racional é constituída pela parte mais refletida, mais deliberada. Esta parte contempla as nossas crenças, deveres e julgamentos e ainda ideais transmitidos e que acabam por estar presentes nas escolhas de objetivos. Esta parte é usada para a planificação de assuntos do dia-a-dia e para a antecipação do futuro.

 

A parte mais emocional é uma parte mais automática, deriva de um monólogo interior mais sensorial e experiencial, mais impulsivo e mais delicado. Esta parte incorpora as nossas avaliações e valores morais pro-sociais.

 

Estas duas partes de nós, a “nossa emoção” e a “nossa razão” são duas vozes distintas, e estão ambas acessíveis à consciências, mas uma comunica mais em palavras e a outra através dos canais sensoriais do nosso corpo. Desta forma é como se fossemos sobretudo movidos pela nossa emoção e guiados pela nossa razão.

 

O trabalho essencial da psicoterapia consiste precisamente em poder ajudar as pessoas a conseguirem lidar com as suas emoções de forma mais efetiva, sendo que este trabalho enriquecedor consiste exatamente em colocar estas nossas duas partes, a parte emocional e a parte racional a dialogar de forma útil e produtiva, trabalhando-se no sentido da integração da emoção e da cognição, usando-se a cognição para dar sentido à emoção.

 

O que se pretende e que é tarefa complexa é ajudar as pessoas a ficarem cada vez mais familiarizadas no processo de identificação e diferenciação das suas emoções, ajudar à diferenciação dos sentimentos individuais dos sentimentos dos outros e ajudar à síntese de emoções que surjam primeiramente como contraditórias.

 

Pretende-se assim ajudar as pessoas a usarem as emoções como informação para ser “lida” e percebida, para que os sentimentos e emoções possam ser articulados em palavras e símbolos, para que assim, depois de entendida a emoção, possa ser usada na medida mais certa da pretendida em determinado contexto.

 

Desta forma, e de acordo com este diálogo necessário entre emoção e razão vai-se tornando mais simples percebermos com quem estaremos zangados em determinado momento, zangando-nos na medida mais ajustada, conseguindo-se assim expressar essa zanga no tempo e contexto mais acertado e da forma mais adequada.

publicado às 10:02

Contos terapêuticos: Ep1 - História da Eduarda

por oficinadepsicologia, em 10.07.12

Autora: Fabiana Andrade

Psicóloga Clínica

www.oficinadepsicologia.com

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Fabiana Andrade

Ao pensar no que escrever para o meu próximo artigo, percebi que estava a ficar aborrecida com o meu formato tradicional de escrita.

Surgiu-me então a ideia de iniciar o que chamei de Contos Terapêuticos.

 

Observei muitas e muitas histórias de clientes, vi que muitas delas apresentam temáticas semelhantes. Essa semelhança estende-se também por histórias que observo mesmo fora do consultório, no meu próprio dia a dia e das pessoas que me rodeiam.

 

Assim, para cada temática decidi criar um personagem. Nesse personagem, represento características de várias pessoas e num breve conto exponho uma situação em que o personagem utiliza as suas características e o seu modo de estar para resolver situações do dia a dia. Além disso, conto ainda como, com a psicoterapia, ele foi capaz de superar seus obstáculos.

Com esse formato, espero que cada um dos leitores possa identificar-se com um ou mais personagens, e assim, encontrar inspiração nas estratégias utilizadas por eles.

 

Abordaremos temas como a solidão e dificuldades de relacionamento, estado de medo/ansiedade, comunicação com os filhos, comunicação com os pais, sexualidade, traumas, depressão, obesidade entre outros.

 

Como o projeto é contínuo, sempre que as histórias que ouço me inspirarem e remeterem a uma temática específica, transponho para o papel e partilho com todos os leitores.

 

Hoje decidi começar pela temática da Comunicação entre Casais!

Assim, surge-nos a Eduarda.

 

Eduarda é casada, tem dois filhos, e pede ajuda pois está a ter problemas no seu casamento com Carlos.

 

 

publicado às 12:24


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