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Sim, podemos desligá-lo!

por oficinadepsicologia, em 10.08.12

Autora: Catarina Mexia

Psicóloga Clínica e Terapeuta familiar e conjugal

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Catarina Mexia

Quando, em 1876, Alexander Graham Bell usou a sua mais recente engenhoca para chamar o assistente do último andar da estalagem em Boston, não sonhava o desenvolvimento ou a importância que tal descoberta viria a ter nos dias de hoje.

 

O telefone tornou-se o companheiro fiel das mulheres, adolescentes e profissionais. Chega a ser utilizado como um terapeuta, um confidente e até uma arma contra o aborrecimento ou a insegurança. Na sua versão mais moderna, o telemóvel fica mais complexo a cada novo lançamento, enquanto as suas funções e a sua influência na vida moderna aumentam a uma velocidade vertiginosa. Se há poucos anos este aparelho era considerado um sinal exterior de riqueza e de status, hoje é quase indispensável na vida pessoal e profissional de cada um de nós, transformando- se em pouco tempo numa necessidade quase básica.

 

Atualmente é uma visão vulgar, normal e aceitável o comportamento de pessoas gesticulando, parecendo que falam sozinhas, quando usam o auricular, enquanto conduzem ou andam na rua. Da mesma forma que também é vulgar encontrar um grupo de amigos reunidos num jantar ou à volta de uma mesa sendo que alguns deles estão entretidos em conversas distintas através dos seus aparelhos, ou fixados nos ecrãs dedilhando mensagens ou navegando no mundo da net. A dependência com os telemóveis é quase patológica, ou como diz o escritor italiano, Umberto Eco, estes tornaram-se numa "extensão das mãos".

 

Ao telemóvel com os pais. Grande parte dos utilizadores dos telemóveis são crianças e adolescentes, apesar de o seu uso nem sempre estar relacionado com a sua principal função, que é a da comunicação, mas sim com a utilização de uma multiplicidade de características acessórias, como os jogos, as câmaras fotográficas e de filmar, as SMS's, etc. No entanto, por vezes nem são os adolescentes ou as crianças que precisam por si só dos telemóveis, mas sim os seus pais: este aparelho consegue cumprir uma necessidade dos pais que é a de terem uma ama à distância, pois permite-lhes estar em contacto com os filhos sempre que precisem.

Esta parece ser uma das mais valias de tal aparelho, na medida em que aumentou a sensação de segurança daqueles que o possuem. O envio de um SOS ou apenas o pedido de prolongar a noite para além do combinado são facilidades únicas que o telemóvel proporciona.

No entanto, a facilidade e a impessoalidade de um contacto telefónico não promove a gestão/negociação de situações que necessitariam de uma conversa calma, face a face, com ambos os pais. Para não falar das famosas quebras de rede que permitem que o telefone não seja desligado, mas que impedem a continuação de uma conversa que não estava a agradar.

 

Dependência. Existe um desencontro entre os psicólogos e os utilizadores na forma de encarar tal instrumento. Se para os primeiros pode ser considerado a febre do século, já para os segundos é apenas uma necessidade muito premente.

 

É frequente sentirmo-nos completamente perdidos, quase isolados do mundo, como se mais nenhum outro meio de comunicação existisse, quando somos surpreendidos por uma bateria que acaba. Para alguns, e porque muitos destes aparelhos nos permitem guardar informações preciosas que vão desde a nossa agenda diária, agenda de contactos, entre outras coisas, o dia entra em stand by. Ficamos como loucos tentando encontrar uma forma de recuperar a nossa vida, recuperando a carga da bateria.

 

Um outro fenómeno associado aos telefones móveis, são as SMS's. Milhões de mensagens são enviadas por ano, especialmente por adolescentes. Se estivermos atentos verificamos que a maioria deles adquire competências extraordinárias na utilização do teclado, que lhe permite escrever sem olhar, independentemente da marca do telefone, a velocidades alucinantes.

 

Nova linguagem. Esta nova tecnologia tem originado a organização de conferencias e debates acesos junto de linguistas, pois criou-se quase que um novo código linguístico próprio deste tipo de comunicação: "Kiduxo, hj keria mm star ctg. Xts sp cmgo.dec kk csa. Axu k gxto mt d ti perxebs. Bjs Sónia" (In"compreender os adolescentes", Helena Fonseca). Tradução: "Queriducho, hoje queria mesmo estar contigo. Estás sempre comigo. Diz-me qualquer coisa. Acho que gosto muito de ti percebes. Beijos Sónia".

 

Entre outras razões, nas quais se inclui um menor custo, a utilização das SMS's permite ultrapassar situações de timidez e dificuldades na expressão adequada de sentimentos, tão características na idade da adolescência. Também os adultos já descobriram essa qualidade das SMS's: quantas relações escondidas são alimentadas pelas mensagens escritas que permitem maior privacidade numa sala cheia de gente, em comparação com uma tradicional conversa telefónica.

 

Novos hábitos. Se por um lado os telemóveis aproximaram pessoas, facilitaram contactos, por outro alteraram e até prejudicaram algumas características únicas dos relacionamentos.

 

A incapacidade de adiar o prazer ou desprazer de comunicar uma notícia, boa ou má, parece ser uma das consequências. A facilidade com que pegamos num telemóvel para comunicar, por exemplo, uma situação desagradável, encurtou e não promove o tempo de reflexão necessário para que, muitas vezes o caminho até a casa ou a um local com um telefone fixo, permitiam e nos ajudava a estruturar uma conversa filtrando aquilo de facto precisava ser dito. Quantas vezes o telemóvel é usado para descarregar a nossa fúria, para alguns minutos depois nos darmos conta que teria sido mais proveitoso "dormir sobre o assunto".

 

Verificamos com frequência que parece haver um alargamento da noção de intimidade. O onde e como falar de certos assuntos, parece ter sido esquecido, pois muitas vezes somos confrontados, em locais dos quais dificilmente nos podemos ausentar, como um transporte público ou uma sala de espera de consultório médico ou serviço público, com pessoas que utilizam esse tempo para falar daquilo que anteriormente só teríamos coragem de o fazer na privacidade da nossa casa, ou mesmo do nosso quarto. Esta violação da intimidade não é só para aqueles que estão envolvidos na conversa, mas também daqueles que têm de a ouvir. Curiosamente a primeira pergunta que surge numa chamada deste tipo, não é um cumprimento, o interesse pela saúde do interlocutor, mas "onde estás? ". Invariavelmente, mesmo que esta não seja uma informação pertinente para o desenrolar da conversa, esta questão vai surgir.

 

Como muitas coisas que são introduzidas a uma velocidade alucinante no nosso dia-a-dia do século XXI, o telemóvel tem aspectos positivos e negativos e outros aos quais é necessário habituarmo-nos. A reflexão individual, para além das regras exteriores que já nos vão sendo impostas ajudar-nos-ão a tirar partido das vantagens, mantendo- nos atentos de forma critica, questionando-nos continuamente como queremos posicionarmo-nos perante tais melhoramentos

publicado às 09:40

A música e as emoções

por oficinadepsicologia, em 07.08.12

Autora: Cristiana Pereira

Psicóloga Clínica

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Cristiana Pereira

"A música permite que a criança brinque, dentro de nós; que o monge dentro de nós reze, que o jovem dentro de nós dance e que o herói dentro de nós supere todos os obstáculos. ou quase todos" – Don Campell.

 

Alguma vez sentiu um friozinho na barriga enquanto ouvia determinada música ou mesmo um trecho dela; enquanto dançava uma balada romântica ou ainda quando ecoava os primeiros acordes do hino nacional?

Está comprovado que a música e as emoções podem caminhar juntas, porque os centros de prazer activados no cérebro (hipotálamo, por exemplo) são os mesmos que os estimulados quando comemos chocolate por exemplo.

 

A música, além de provocar fortes reacções emocionais, como o arrepio, o riso e as lágrimas, pode diminuir a resposta tanto física como psíquica ao stresse. Por outras palavras, a música pode provocar redução dos níveis de ansiedade, diminuição da pressão arterial e da frequência cardíaca, e modificações nos níveis de cortisol e adrenalina no sangue.

 

Quais são, então, os benefícios psicológicos da música? Estimular a comunicação entre as pessoas; aumentar a auto-estima e a auto-expressão (por exemplo, a dança); favorecer a catarse, a introspecção, a reflexão, o surgimento de recordações, de novas sensações e emoções que muitas vezes não podem ser expressas por meio da fala ou da linguagem verbal.

Sendo assim, diversos factores influenciam as nossas respostas fisiológicas e psíquicas frente à música: a capacidade particular de perceber e ouvir, a educação, a cultura, a situação social do momento...

 

Podemos dizer que a música é um tipo de comunicação que possui formas, regras e tempos diferentes dos da nossa fala por exemplo. A música é uma linguagem que tem a capacidade de transmitir com facilidade as emoções e os desejos mais íntimos ou até inconscientes.

 

E quantos de nós já utilizaram a música como um “ansiolítico”? Estou a falar-vos da "música de fundo", enquanto realizamos outras actividades, como estudar, trabalhar, cozinhar, conduzir enquanto estamos no meio do trânsito ou fazer um exercício físico.

Não há dúvida de que a música traz inúmeros benefícios a mente e corpo e, para desfrutá-los, basta somente deixar-se invadir por diferentes sons, quer seja da natureza, como o canto de um pássaro, ou de uma sinfonia de Mozart.

publicado às 10:34

Palavras que direi

por oficinadepsicologia, em 04.08.12

Autora: Ana Beirão

Psicóloga Clínica

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Ana Beirão

 

Vários são os livros/filmes que retratam a enorme ansiedade de não saber expressar as nossas ideias e sentimentos, principalmente a quem nos é mais próximo. “As palavras que nunca te direi” para quem leu o livro ou viu o filme, fala do vazio que se sente quando uma pessoa significativa sai da nossa vida. Fica connosco a dor e a impossibilidade de expressarmos tudo o que ficou por dizer. Neste livro, o autor  Nicholas Sparks, cria uma personagem que perdeu, de repente, a sua companheira. A experiência foi tão avassaladora que a solução encontrada acaba por passar pela redacção de uma carta, que por sua vez é jogada ao mar, lugar onde a companheira perdeu a vida. É nessa mensagem que são expressas as palavras que precisavam de ser ditas e a tentativa da despedida é praticada.

 

Freud dizia “As palavras, originalmente, eram mágicas e até os dias de hoje conservaram muito do seu antigo poder mágico.” O uso da palavra reflecte o nosso interior, como os pensamentos, emoções esperanças, alegrias, tristezas. As palavras são poderosas porque ajudam-nos a comunicar as nossas experiências. O não conseguir expor os pensamentos e sentimentos faz com que muitas vezes não consigamos transmitir aos outros aquilo que nos incomoda e preocupa. A partilha facilita a comunicação com o outro e a maneira como estamos com os nossos familiares, companheiros, amigos e colegas. Mas muitas pessoas manifestam esta dificuldade, de não saber partilhar o que nelas habita. Por que nos prestamos a este aperto? Porque é que é tão difícil e por vezes até doloroso dizer o que sentimos? Esperamos a censura?

 

Existem diversas razões para não saber explicar aquilo que sentimos. Todos temos uma consciência interna, mas essa consciência varia de pessoa para pessoa, assim como a maneira como comunicamos com os outros. A maneira de nos expressarmos verbalmente reflecte o nosso íntimo e devido ao nosso desenvolvimento pessoal nem sempre o conseguimos fazer.  Mas senão conseguimos falar porque não escrever?

 

O escrever é uma maneira de conseguir contar a nossa história com um princípio, um meio e um fim. Temos a possibilidade de melhor estruturar e reflectir as nossas percepções. Estamos mais atentos à nossa experiência interna (como é que eu me sinto?) e ao que nos rodeia (como é que a relação com os outros me afecta?). Escrever é exteriorizar, é explorar ideias, é dar uma casa aos pensamentos. Porque não manter um pequeno diário ou um bloco de notas que anda na carteira ou na mochila, que permite com que um dado momento não se escape? A intenção é escrever o que nos abalroa caso seja difícil ou impossível exteriorizar de outra maneira. O diário/bloco pode ser um amigo. Não nos julga e guarda nele os momentos mais tristes mas também os nossos pensamentos, esperanças e perguntas, que podem mais tarde facilitar a reestruturação de ideias. O nosso “diário” possibilita uma reflexão pessoal do nosso eu assim como das nossas actividades. É um confidente muito especial, sirva-se dele!

publicado às 09:48

Relações de consumo imediato?

por oficinadepsicologia, em 31.07.12

Autora: Inês Alexandre

Psicóloga Clínica

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Inês Alexandre

O despertador toca. Aguardamos 10 minutos antes que o dia comece. Tenho de levantar-me e correr para o trabalho e correr para o almoço e correr de novo para o trabalho e correr para ir buscar os filhos ou ir para o ginásio ou ir arranjar o telemóvel que se estragou ou ir comprar umas calças e também tenho de trocar aquela televisão que é pequena demais e o computador que não é tão rápido quanto eu gostaria.

Vivemos assim, a mil à hora, à procura de algo que nem sabemos o que é. Consumimos produtos que nos entram em casa também a mil à hora e descartamo-los porque já não nos servem, por uma qualquer razão que inventamos também com facilidade. O consumo é imediato e centrado no prazer e na necessidade, tão presente neste tempo em que vivemos, de ter. Até as palavras que utilizamos são denunciadoras: não tenho dinheiro, não tenho tempo, não tenho saúde, não tenho amor, não tenho boas notas. Parecemos viver, de uma forma geral, centrados no consumo: temos de ter aquele carro, aquela casa, aquele boneco, aquela roupa, aquele electrodoméstico, aquela marca. O que temos define-nos, é um espelho do que somos.

 

E para termos, há que… produzir. Corremos para o trabalho para produzir e sermos eficazes (outra palavra cara), realizando um máximo de coisas num mínimo de tempo possível. Para que sejamos considerados e tenhamos dinheiro para poder ter, consumir rápido com o que ganhámos a produzir rápido.

 

Educamo-nos e aos nossos filhos assim, com os verbos ter e fazer, sem que exista grande espaço de reflexão. Lembro-me muitas vezes dos meus tempos de escola e das aulas serem orientadas quase exclusivamente para uma coisa: para podermos fazer testes e ter boas notas e entrar para a faculdade. Para aqui fazermos exames e termos boas notas para virmos a ter um bom trabalho. Para produzirmos muito e termos bastante para podermos dar aos nossos filhos uma boa educação. E o ciclo repete-se.

Os tempos de crise, dolorosos para quase todos, têm-nos trazido algo: a consciência da insustentabilidade deste modelo, não só em termos macros sociais, mas também aos níveis individual e familiar. Afinal, se nos centramos e definimos, enquanto pessoas e enquanto grupo, no capital que produzimos, o que resta de nós sem dinheiro? Quem sou eu sem as coisas que compro? O que faço com o meu tempo, no dia em que não ande a correr para produzir para a seguir consumir? O que faço comigo?

 

Estas são problemáticas cada vez mais presentes em consultório, nomeadamente nas consultas de terapia conjugal ou familiar. Os sistemas conjugal e familiar constituem espaços privilegiados de transformação e têm sofrido mudanças profundas. Numa sociedade virada, de uma forma geral, para o prazer e consumo imediato, a noção de esforço (e, por consequência, a de mudança) não é, muitas vezes, vista com bons olhos. Também na conjugalidade a correria é desenfreada para que possamos” ter”, “agora” e de um modo que nos satisfaça. As relações devem ser fáceis, fluidas, sem grandes dificuldades, devem preencher-nos e se possível não nos colocar em causa, pois isso envolveria o esforço de nos mudarmos.

 

As relações não têm de ser difíceis ou trazer sofrimento, assim como não tem de trazer sofrimento a frustração de não conseguir ter aquele automóvel que tanto desejamos. Uma relação pode ser fácil, se por fácil não entendamos sem conflito, sem dificuldades, sem ajustes, sem mudança, sem esforço. A capacidade de mudar mantendo o que nos é essencial é, no meu entendimento, uma das grandes chaves da felicidade a dois. Como nos diz Erich Fromm, “o amor é uma arte […] se queremos aprender a amar temos de fazer o que faríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, como a música, a pintura, a carpintaria”. Só com esforço poderemos construir-nos, individual e colectivamente.

 

Talvez as soluções passem por conceder-nos outros espaços: espaços para sermos. Aqui, a terapia surge apenas como uma das possibilidades. Temos as escolas, os grupos de amigos, o tempo em casal e em família, os espaços individuais. Espaços de reflexão que nos permitam irmos descobrindo quem somos, individual e colectivamente, para que não fiquemos dependentes do que temos mas de quem somos. Espaços de partilha – no casal, na família, com os amigos, na sociedade – que satisfaçam a nossa necessidade profunda de pertença a algo maior. Espaços de auto-conhecimento, porque são estes que nos permitem compreendermo-nos, amarmo-nos e construir uma relação sólida connosco, condição fundamental para que possamos dar e amar os outros, e com eles construir relações profundas e de verdadeira intimidade.

publicado às 13:11

Raiva na estrada

por oficinadepsicologia, em 29.07.12

Autora: Marta Gonçalves Porto

Psicóloga Clínica

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Marta Gonçalves Porto

 

Os fenómenos de condução agressiva e road rage (raiva na estrada) aumentam exponencialmente o risco de colisão e a pertinência da abordagem destes temas prende-se com a elevada quantidade de acidentes graves de viação que resultam em ferimentos graves e vítimas mortais.

 

Segundo Leon James, psicólogo norte-americano especializado nas componentes cognitiva e comportamental relacionadas com os fenómenos supracitados, as pessoas tornam-se automática e potencialmente mais agressivas pelo facto de se sentarem ao volante de um automóvel, devido à incapacidade de resistir à provocação e ao desejo de retaliação. Segundo o autor, as pessoas canalizam as suas frustrações para o trânsito, abordando os outros condutores como se fossem apenas automóveis e não como seres humanos, colocando-se em primeiro lugar. Neste sentido, o condutor percepciona a sua viagem tendo em consideração apenas os seus desejos e necessidades, não respeitando os interesses de cada um dos utentes que circulam e que se encontram igualmente a fazer a sua própria viagem.

 

Diane Nahl, colaboradora de James, acrescenta que a raiva e o descontrolo emocional estão relacionados com a ideia de morte, sendo que na condução existe um número muito elevado de estímulos que nos remetem inconscientemente para o perigo de vida. Este factor, aliado à procura de excitação, impaciência, aborrecimento, hostilidade e/ou pressa, contribui para o despoletar de um comportamento agressivo e uma abordagem baseada na raiva no que diz respeito à condução.

 

Em Portugal, deparamo-nos com uma intensa escassez de estudos neste âmbito. De acordo com Mário Horta, director do Departamento de Prevenção Rodoviária Portuguesa, a frustração pode contribuir para que o sujeito se veja a si próprio como parte do veículo, fazendo com que o indivíduo tenha uma falsa sensação de poder e até de omnipotência.

 

Nesta perspectiva, a falsa percepção de controlo por parte dos condutores agressivos dificulta o reconhecimento dos seus erros, diminuindo a probabilidade de adopção de uma condução mais defensiva, contribuindo para a perpetuação da agressividade ao volante.

Quando um condutor impede, por exemplo, a passagem a outro, despoleta na pessoa a quem foi negada a passagem, a evidência da sua impotência, sendo que a ilusão de controlo é desvanecida, dando lugar ao aparecimento da agressividade como resultado dessa frustração.

É importante referir que o anonimato e a atribuição a causas exteriores (trânsito congestionado, reacções de outros condutores) contribuem para que o condutor agressivo se sinta confortável para assumir determinados comportamentos em que relega o outro para segundo lugar, podendo colocar a sua vida e a do outro em causa.

 

A influência social contribui igualmente para a reprodução de comportamentos agressivos na estrada, uma vez que o efeito cumulativo de situações diárias caracterizadas pela hostilidade e a sensação de impunidade, promovem uma cultura de desrespeito nas estradas.

Após uma revisão teórica da condução agressiva, torna-se fulcral referir o que podemos fazer na prática para transformar os comportamentos agressivos na estrada em comportamentos que espelhem uma condução defensiva, promotores de um viagem segura e serena.

Assim, antes de iniciar a condução, é importante estar ciente de que vai praticar uma tarefa potencialmente perigosa e que exige a sua plena atenção. Nesta perspectiva, é fundamental ter em consideração os seguintes aspectos:

  • respeito pelas regras e sinais de trânsito;
  •  regulação da velocidade em função das circunstâncias;
  •  distância de segurança;
  •  não ingerir bebidas alcoólicas ou fármacos que afectem a condução;
  • ouvir música calma;
  • utilizar a buzina correctamente;
  • evitar conduzir se estiver perturbado emocionalmente;
  • conceder aos outros condutores tempo para procederem às suas manobras;
  • pedir desculpa perante um erro.

 

Para quê a agressividade?

publicado às 11:41

O ninho vazio: quando os filhos saem de casa

por oficinadepsicologia, em 25.07.12

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

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Isabel Policarpo

A síndrome do “ninho vazio” refere-se a sentimentos de depressão, tristeza e dor que os pais experienciam quando os filhos deixam as suas casas de família.

 

As mulheres são geralmente as mais afectadas, contudo isso não quer dizer que os homens sejam completamente imunes à síndrome do “ninho vazio”. De facto, os homens também podem vivenciar os mesmos sentimentos de perda com a partida dos filhos e também passam por um período de adaptação, mas as suas reacções podem ser diferentes e não têm forçosamente de espelhar as da mulher.

Mas independentemente das razões dos filhos para cortarem o “cordão umbilical” com os pais – a ida para a faculdade, talvez casar ou simplesmente mudar de cidade para começar a trabalhar, a situação provoca em nós um carrossel de emoções. E que conjunto de emoções!

Para além dos inevitáveis sentimentos de perda, todos nós enfrentamos esta transição com ansiedade, stress e alegria. Não sabemos se havemos de celebrar a nossa nova liberdade ou se chorar pela temida solidão. Podemos sentirmo-nos alegres e tristes, confiantes e medrosos, optimistas e cheios de preocupações e tudo isso pode acontecer ao mesmo tempo e num só dia, o que é perfeitamente normal.

 

Mas a saída de casa dos filhos não tem de ser sinónimo de crise, na prática trata-se de um estádio natural do nosso ciclo de vida, de uma mudança que a maioria de nós desejou para si próprio e que espera que os filhos mais tarde ou mais cedo também alcancem.

 

Já pensou que quando um filho está pronto para sair de casa, isso geralmente significa que nós como pais, fomos bem sucedidos a educá-lo de modo a ele ser auto-suficiente e independente – uma das tarefas seguramente mais importantes que temos como educadores? Já pensou que com a partida dos filhos também você merece um voto de parabéns? Sim, parabéns por ter criado o seu filho/filha de modo a que ele/ela seja capaz de ser dono de si e da sua própria vida.

 

Apesar de tudo isso, não conseguimos deixar de ser invadidos pela ansiedade, pelo stress e por alguma tristeza. Sempre que isso sucede, talvez ajude pensar noutros momentos em que deixou o seu filho ir por si e no quanto essas situações ensinaram a ambos lições importantes. Talvez a primeira vez que deixou o seu filho sozinho foi quando ele ficou a dormir em casa dos avós, para poder ir fazer aquele programa que há muito não fazia, ou quando o convite da festa de aniversário de um amiguinho excluía os adultos ou simplesmente quando o deixou pela primeira vez no infantário. Depois disso, houve muitos outros momentos em que o deixou aventurar-se por si próprio, munido com as ferramentas e valores que lhe passou para ser bem sucedido. Provavelmente nem sempre foi fácil nem tranquilo, mas o facto de o ter deixado ir significou que confiava que nele, que acreditava que ele tinha aprendido com as experiências anteriores e/ou sabia lidar com as circunstâncias do presente e sair delas com uma sensação de conforto e satisfação.

 

Acresce que quando os filhos saem de casa também o nosso papel como pais muda. Deixamos de estar fisicamente presentes, para passarmos a ter uma presença mais remota e distante. Provavelmente deixamos de saber como foi o seu dia-a-dia, assim como deixamos de saber se hoje estava alegre ou triste. Mas isso não significa que o nosso papel de pais desapareça, de facto ele mantém-se, mas de um modo distinto, o que requer um ajustamento da nossa parte, um ajustamento que é absolutamente necessário e no interesse do jovem.

 

Como sobreviver a este tempo de mudança?

O stress e a ansiedade podem tornar-nos irritadas, deprimidas e auto-centradas, o que pode conduzir a zangas com o companheiro. É importante ter a noção que ambos estão a passar por uma fase de adaptação que é difícil. A melhor coisa que podem fazer um pelo outro é ouvir, dar o ombro para o outro se encostar e ser tolerante e apoiante. Para aqueles que são pais “solteiros”, é importante que possam contar com amigos e familiares para ajudar. Também encontrar outras pessoas que estejam a passar pela mesma fase de vida com quem falar, pode ser uma boa alternativa.

 

Não se esqueça de ouvir o seu filho e procure perceber em que é que ele precisa e em que é que ele não precisa de si. Tente compreender qual é a ideia dele acerca da nova relação convosco. É importante dar apoio e encorajá-lo. Faça-lhe saber que apesar de ser uma nova fase da vida dele, que acredita que vai ser bem sucedido. É importante que tentar relacionar-se com ele de um modo adulto.

 

E não se esqueça que agora chegou o momento para tomar conta de si, para se nutrir de todas as formas que lhe fazem sentir-se bem. Pode-lhe apetecer ir ao ginásio, aprender a pintar ou uma nova língua, relacionar-se com amigos antigos ou fazer novos amigos, voltar à escola, arranjar um trabalho ou ser voluntário. Há tantas coisas que pode fazer por si, basta sentar-se e pensar nisso. Pode igualmente envolver-se em projectos que teve de deixar de lado – projectos como ter a casa organizada, ir de viagem ou arrumar álbuns de fotografias.

 

A saída de casa de um filho marca o inicio de uma nova fase, não só para ele, mas também para si. Procure olhar a vida noutra perspectiva e explore coisas novas ou tão somente as antigas que ficaram em stand-by, mas acima de tudo dê a si mesma um intervalo, permita sentir-se triste, alegre, optimista, receosa ou qualquer que seja a emoção. E lembre-se que não está sozinha.

publicado às 14:31

O calor da humanidade

por oficinadepsicologia, em 24.07.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

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Antonio Norton

Como sair da depressão? Se ajudar o outro ajuda-se a si!

Quando falamos de depressão falamos de uma estado de lassidão, de falta de energia anímica, de motivação, falta de vontade de lutar e de enfrentar os desafios que a vida, continuamente, coloca.

Falamos de uma anulação do investimento que a pessoa faz sobre si mesma. De algum modo, deixamos de acreditar em nós mesmos.

Quando penso em depressão, surge-me a ideia de subnutrição de afecto e de encurralamento. Alguém deprimido, é alguém que sente que chegou ao "fim da linha" e que não existe nem nunca existirá uma saída.

Gostaria de reflectir sobre a ideia de subnutrição de afecto. Quando estamos deprimidos sentimos uma carência de afecto. É como se estivéssemos fechados sobre nós próprios. É como se nada tivéssemos para dar e como se as outras pessoas à nossa volta não existissem. Estamos, pois, afundados num poço escuro.

 

Como sair deste buraco? Como encontrar alguma luz?

As nossas emoções são o principal responsável pela forma como percepcionamos a realidade que nos rodeia. Quando nos sentimos tristes e desamparados, fechados sobre nós mesmos, é natural que vejamos a nossa vida como um lugar cinzento onde não apetece estar, viver, sentir, ser.

Estamos desvitalizados, murchos e sem vida...

O que é preciso? O que fazer?

 

Na minha opinião de Psicólogo Clínico algo de extrema importância para a resolução do quadro negro que apresento é o contacto humano, o toque humano, o sentir que o outro nos quer bem e nos valoriza. Se estivermos abertos ao outro poderemos reciclar-nos emocionalmente. A espontaneidade de alguém que vive e está noutro "comprimento de onda" poderá ser um tónico para abalar a nossa rigidez depressiva. O rir, o brincar, a espontaneidade, a partilha que outro ser humano nos pode proporcionar poderá abalar e contribuir enormemente para colorir o nosso mundo interno.

 

Com isto quero dizer que é muito importante conviver! Estar com outras pessoas. O isolamento na depressão agrava o quadro. A nossa ruminação depressiva apodera-se de nós, vivemos totalmente encerrados e cada vez o nosso mundo fica mais negro.

Mas mais importante que o convívio é a partilha de significativas experiências no contacto humano. Se estamos deprimidos muitas vezes saímos e procuramos conviver mas, como estamos “negros”, as nossas interacções e partilhas redundam em futilidade e superficialidade. Se nos encontramos simplesmente por encontrar e se não damos nada de nós, é natural que o outro se torne aversivo.

O que é importante é ter experiências de contacto humano, ricas! Muito ricas!

 

E com esta ideia gostaria de introduzir a importância de nos sentirmos úteis! De podermos ajudar o próximo! Poder e conseguir ajudar outra pessoa, é algo extremamente valioso. Se sentirmos que alguém estima e reconhece esta ajuda, a nossa auto-estima começará a modificar-se!

Se agradecerem a nossa ajuda com uma palavra, com um olhar ou com um gesto, a nossa auto-estima muda!

O importante é ajudar!

E por vezes, para ajudar nem é preciso falar muito. Quando estamos muito deprimidos não desejamos falar. Tudo nos cansa. Então, podemos simplesmente ajudar com gestos ou com acções.

 

E como podemos ajudar?

Eu proponho acções de voluntariado, de humanismo, de partilha, de dar e receber!

Existem inúmeras acções de voluntariado espalhadas pelo país.

Vou deixar aqui uma lista delas:

http://www.fundacaoeugeniodealmeida.pt/banco-voluntariado/areas.asp

Esta é apenas uma de inúmeras listas de voluntariado que existem.

 

Quando você ajuda outro ser humano, também se ajuda a si mesmo.

Quando você faz bem a outra pessoa, também faz bem a si mesmo.

O amor que dá ao outro, é o amor que dá a si.

E quando se sentir nutrido afectivamente começará a ver o mundo de outra forma. O negro e o cinzento deixarão de ser as cores dominantes do seu mundo interior. Vai sentir-se melhor! Acredite!

Vai conhecer pessoas sem segundas intenções que estão na onda de ajudar e que vão transmitir-lhe energia positiva.

 

Mudando o outro, muda-se a si mesmo.

Pense nisto.

publicado às 16:06

Autora: Isabel Policarpo

Psicóloga Clínica

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Isabel Policarpo

De modo quase surpreendente a dimensão da nossa pupila dá indicações preciosas e objectivas sobre a nossa letargia e o nosso grau de privação do sono.

 

A medida chamada de pupilometria é muito utilizada em investigação – de facto não só a dimensão da pupila, mas também a forma como esta muda pode ter significado.

 

A dimensão da pupila é afectada pela acção do sistema nervoso. Durante os períodos de repouso ou inversamente durante os períodos de actividade e activação esta influência muda. Se está activo o sistema nervoso simpático entrará em acção e as suas pupilas dilatam-se, permitindo que mais informação seja percepcionada e assimilada. Durante os períodos de descanso e relaxamento o sistema nervoso parassimpático complementarmente entrará em acção, fazendo com que as pupilas retomem o seu estado por defeito e se tornem assim mais pequenas.

A investigação demonstrou que existe uma forte relação entre a privação de sono, o tamanho da pupila e a sua estabilidade. Um indivíduo bem descansado consegue manter a pupila constante na escuridão durante 15 minutos. À medida que aumenta a nossa privação de sono, a dimensão da nossa pupila fica menos estável, isto é oscila entre ficar subitamente muito grande ou pequena, em vez de manter a dimensão.

publicado às 17:24

Ser um bom ouvinte não chega!

por oficinadepsicologia, em 15.07.12

Autor: António Norton

Psicólogo Clínico

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António Norton

Existem pessoas que são extraordinários ouvintes! Ouvem qualquer um, sem ansiedade, com calma, com disponibilidade emocional, com afecto, com interesse. E não são psicólogos! Existem pessoas que, verdadeiramente, transmitem a sensação de que estão atentas ao que falamos e transmitimos.

 

Mesmo assim, alguns destes excelentes ouvintes não chegam a criar relações fortes de amizade.

Mas porquê? O que é que lhes falta? Ouvem tanto! Estão lá sempre!

 

É que ouvir não basta. Uma relação de amizade saudável vive da reciprocidade, da partilha, da troca de experiências, testemunhos, vivências. Uma relação de amizade não vive de monólogos em que se criam relações de cuidador.

Eu gostaria de reflectir sobre esta dinâmica relacional entre uma pessoa que está continuamente no papel de ouvinte e não é psicólogo!

Sublinho esta ideia de se ser um bom ouvinte e não se ser psicólogo.

 

Um psicólogo é uma pessoa que está disponível para ouvir uma outra, é alguém que apresenta uma enorme disponibilidade para estar com outro ser humano. Não é suposto um psicólogo falar sobre si mas antes estar disponível para o outro. E neste sentido não estamos a falar de uma relação de amizade, mas sim de cuidador.

 

Voltemos às relações ditas de amizade em que existe uma rigidez no papel de ouvinte...

Se alguém faz da sua relação com o outro uma dinâmica em que apenas ouve, então essa relação é desequilibrada. Não há reciprocidade e existe uma polaridade disfuncional.

 

O que faz uma pessoa ser, continuamente, ouvinte? Quando alguém se coloca no papel de ouvinte está disponível para o outro e sente-se valorizado por estar a ajudar. Quanto mais é reforçado e elogiado pela sua qualidade de bom ouvinte, mais tenderá a procurar esse espaço relacional no contacto com outro. Passa a criar relações de intimidade valiosas. De certo modo, começa a conhecer muito bem as pessoas que vai ouvindo.

 

Mas aqui coloco uma questão: Quem se coloca no papel de ouvinte conhece o outro, mas até que ponto o outro, conhece o ouvinte? Até que ponto o ouvinte não esconde a sua intimidade, as suas idiossincrasias, as suas necessidades pessoais, o seu mundo interno, ao colocar-se neste papel?

Ouvir é bom, mas também é bom que alguém nos ouça! Muitas vezes as pessoas que nas dinâmicas de amizade assumem o papel rígido de ouvintes têm medo de se expor, de revelar a sua pessoa. Simplesmente, quanto menos se expuserem também menos se darão a conhecer e a relação ficará cada vez mais desequilibrada.

 

Existe tempo para ouvir e tempo para ser ouvido! As relações de amizade criam-se com a partilha dos mundos de cada um, com a troca, a reciprocidade. Eu dou de mim e tu dás de ti. Tu conheces-me e eu conheço-te.

Se houver esta partilha, então haverá um espaço relacional, de conhecimento  e poder

-se-à estabelecer uma relação de amizade.

Se notar que apenas ouve e tem alguma rigidez na defesa deste papel – o do ouvinte – então, pense sobre o que o faz ser assim e quais as vantagens e desvantagens da sua atitude.

 

É bom ouvir, mas também é bom sermos ouvidos!

Pense nisto!

publicado às 12:38

Razão e emoção: o diálogo necessário

por oficinadepsicologia, em 13.07.12

Autora: Inês Mota

Psicóloga Clínica

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Inês Mota

Com frequência, em consultório, as pessoas consciencializam-se de que não é tarefa simples conhecerem o que sentem e saberem “falar” com elas próprias ou com os outros acerca disso, ou seja, a expressarem o que sentem.

 

A maneira própria como cada um de nós usa a “emoção” ou a “razão” pode estar fundada na forma como fomos aprendendo a usá-las no contexto da nossa família, e como foi perpetuada nas relações com o nosso grupo de amigos, na escola ou no trabalho.

 

De fato e remontando às nossas aprendizagens podemos verificar que o que nos foi sendo passado ao longo dos anos pode ser um pouco contraditório. Ora vejamos, com frequência ouvimos dizer “ aprende a confiar nos teus sentimentos e a seguir o teu coração” ao mesmo tempo que ouvimos também “não sejas demasiado emotivo/a ou irracional”. Assim, perceber e integrar estes ensinamentos nos assuntos do dia-a-dia e na direção a dar às relações não é de todo uma tarefa simples.

 

É também compreensível que muitas pessoas, sem a aprendizagem ou conhecimentos necessários para lidar com as “tempestades emocionais”, possam ser levadas a crer que a melhor forma será de fato controlá-las, podendo tornar-se exímias “problem solvers”, usando de forma recorrente a razão como via para resolver a maioria dos assuntos.

 

Para percebermos a ancestralidade deste debate relembremos o que já nos dizia Aristóteles:  “Toda a gente pode ficar zangada, isso é fácil, agora ficar zangado com a pessoa certa, na medida certa, no tempo certo, pelo propósito adequado e da forma adequada, isso sim já não é tarefa fácil. Pois isso envolve integrar coração e razão.”

 

Algo que nos pode ajudar nesta reflexão é saber que “Emoção” e “Pensamento (razão)” são fenómenos diferentes e que a nossa grande complexidade enquanto seres humanos é termos exatamente estas duas partes dentro de nós, este “eu emotivo” e este “eu racional”  que não estão necessariamente de acordo a maioria das vezes estando até muitas delas, em conflito.

 

A nossa parte mais racional é constituída pela parte mais refletida, mais deliberada. Esta parte contempla as nossas crenças, deveres e julgamentos e ainda ideais transmitidos e que acabam por estar presentes nas escolhas de objetivos. Esta parte é usada para a planificação de assuntos do dia-a-dia e para a antecipação do futuro.

 

A parte mais emocional é uma parte mais automática, deriva de um monólogo interior mais sensorial e experiencial, mais impulsivo e mais delicado. Esta parte incorpora as nossas avaliações e valores morais pro-sociais.

 

Estas duas partes de nós, a “nossa emoção” e a “nossa razão” são duas vozes distintas, e estão ambas acessíveis à consciências, mas uma comunica mais em palavras e a outra através dos canais sensoriais do nosso corpo. Desta forma é como se fossemos sobretudo movidos pela nossa emoção e guiados pela nossa razão.

 

O trabalho essencial da psicoterapia consiste precisamente em poder ajudar as pessoas a conseguirem lidar com as suas emoções de forma mais efetiva, sendo que este trabalho enriquecedor consiste exatamente em colocar estas nossas duas partes, a parte emocional e a parte racional a dialogar de forma útil e produtiva, trabalhando-se no sentido da integração da emoção e da cognição, usando-se a cognição para dar sentido à emoção.

 

O que se pretende e que é tarefa complexa é ajudar as pessoas a ficarem cada vez mais familiarizadas no processo de identificação e diferenciação das suas emoções, ajudar à diferenciação dos sentimentos individuais dos sentimentos dos outros e ajudar à síntese de emoções que surjam primeiramente como contraditórias.

 

Pretende-se assim ajudar as pessoas a usarem as emoções como informação para ser “lida” e percebida, para que os sentimentos e emoções possam ser articulados em palavras e símbolos, para que assim, depois de entendida a emoção, possa ser usada na medida mais certa da pretendida em determinado contexto.

 

Desta forma, e de acordo com este diálogo necessário entre emoção e razão vai-se tornando mais simples percebermos com quem estaremos zangados em determinado momento, zangando-nos na medida mais ajustada, conseguindo-se assim expressar essa zanga no tempo e contexto mais acertado e da forma mais adequada.

publicado às 10:02


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