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Psicoterapia na Promoção de Bem-Estar Espiritual?

por oficinadepsicologia, em 16.11.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

 

Psicólogo Clínico

 

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Pedro Diniz Rodrigues

Para falarmos em saúde espiritual ou bem-estar espiritual, precisaríamos primeiro considerar o termo espiritualidade. Seria difícil definir em nós o grau mais ou menos elevado de algo, que não sabemos exactamente o que é.

 

Ao reflectirmos sobre este tema na nossa vida, rapidamente nos deparamos com a dificuldade de estar a tentar definir ou avaliar aquilo que por natureza não parece estar acessível a uma análise lógica e objectiva.

 

Estamos afinal, a falar de algo que é habitualmente proclamado como incompreensível, por transcender a razão humana, uma das principais ferramentas que utilizamos para dar sentido à realidade que nos rodeia.

 

Como definir então a espiritualidade ou avaliar o grau de bem-estar espiritual?

 

Partindo do princípio que tal tarefa seria possível, como iriamos relacionar psicoterapia com o aumento de bem-estar espiritual?

 

Na literatura sobre este assunto, existem vários estudos que se debruçam na definição e avaliação de espiritualidade e saúde espiritual, e em saber quais os factores que ajudam no seu desenvolvimento.

 

Algumas das definições propostas parecem ter em comum o facto de assentarem numa definição multidimensional da nossa vida.

 

A espiritualidade é assim conotada como uma dimensão fundamental para a saúde e bem-estar globais, na qual estariam incluídas todas as outras dimensões de saúde, nomeadamente, a saúde física, mental, emocional, social e vocacional. É como se de alguma forma, fossem circunscritas por esta dimensão mais abrangente.

 

Com contornos em parte semelhantes, outros modelos criados propõem a existência de domínios, que se debruçam em aspectos como a nossa relação connosco mesmos e a consciência pessoal que daí advém, e que se reflecte na auto-estima, identidade e sentido da vida. Consideram também a qualidade e profundidade das relações que estabelecemos, bem como as expectativas que temos em relação às mesmas. Num outro domínio desta mesma dimensão (espiritual), é também tida em conta a percepção que possamos ter do mundo físico, que poderá ir desde o simples respeito a um profundo sentimento de admiração ou mesmo união com o universo. Num plano mais global, também é contemplado o possível relacionamento que possamos estabelecer com alguma entidade para lá do nível humano, ou a nossa atracção pelo desconhecido no Universo, não deixando de salientar  que o maior ou menor destaque dado a cada um destes aspectos, está dependente das ideias ou valores pessoais e culturais que temos interiorizados.

 

O bem-estar espiritual, tal como qualquer outra dimensão da nossa vida, não é, portanto, encarado como estanque, mas sim como modificável à medida que vamos sendo confrontados com os vários desafios que ela nos coloca.

 

A nossa saúde espiritual seria então o efeito combinado do bem-estar em cada uma das dimensões mencionadas, bem como o grau da harmonia entre as mesmas. A sua melhoria seria, por sua vez, potenciada, por relações mais positivas em cada domínio e pelo aumento da aceitação de novos domínios na nossa vida.

 

Assim sendo, se considerarmos que o contexto psicoterapêutico exerce influência em factores como o aumento da consciência, aceitação e harmonia, entre muitos aspectos da nossa saúde global, nomeadamente a visão de nós mesmos, auto-estima, identidade, qualidade ocupacional, relacional e visão do mundo, poderíamos lançar a hipótese de que estamos na presença de um veículo privilegiado de manutenção e aumento de bem-estar espiritual.

 

publicado às 11:20

Afirmação pessoal

por oficinadepsicologia, em 06.10.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

Como acha que se expressa habitualmente para os outros ?

 

E para si mesmo?

 

O sentirmo-nos mais contentes e realizados ou mais tristes, irritados e sozinhos,

está normalmente relacionado com a forma como interagimos uns com os outros e dizemos o que nos vai cá dentro. A qualidade da nossa expressão pessoal parece assumir-se como um factor determinante sobre o qual será interessante refletir.

 

Sugiro-lhe que se imagine nas seguintes situações:

 

Está numa fila para o cinema e chega uma pessoa que se mete na sua frente.

 

Não consegue dormir, porque o seu vizinho do lado tem música a tocar com o volume muito alto.

 

Um amigo seu pede-lhe emprestado o seu carro novo (que não quer emprestar) para fazer uma viagem.

 

Numa reunião de trabalho com toda a equipa, um dos seus colegas diz-lhe algo com que não está de acordo.

 

Tendo em conta a forma como cada um de nós se afirmaria nestas situações, são identificáveis 3 tipos de atitudes ou posturas que potencialmente adoptamos:

 

Podemos adoptar uma atitude submissa, utilizando neste caso, um volume de voz baixo, hesitante, gaguejando, com bloqueios, silêncios, não olhando diretamente nos olhos, o nosso rosto tem uma expressão forçada e o corpo está tenso. Não queremos incomodar o outro, temos medo de o magoar, preferimos sacrificar-nos abdicando do que precisamos. Sentimo-nos normalmente impotentes, culpabilizando-nos e somos pouco tolerantes connosco mesmos, por sermos demasiado críticos. Não aceitamos as nossas emoções e acabamos sentindo frustração e ressentimento.

 

Podemos também adoptar uma postura agressiva, que nestas situações se traduz normalmente num volume de voz alto, numa fala precipitada e pouco fluída, em que interrompemos constantemente o outro, recorremos a insultos e ameaças para fazer valer o nosso direito. Naquele momento, pensamos que só nós interessamos, achamos que “ganhamos” se o outro não expressar o seu ponto de vista. Pensamos que dessa forma não ficamos vulneráveis. Se adoptamos predominantemente esta atitude, é possível que possamos ter algumas ideias interiorizadas de que há gente “má” e que o mundo não é como gostaríamos que fosse. Acabamos por nos sentir irritados e ansiosos, sozinhos e incompreendidos.

 

Finalmente existe um terceiro tipo de atitude, a assertiva, que será a mais recomendável. Ao sermos assertivos, nas situações descritas falamos de forma fluída, segura, sem bloqueios, olhamos diretamente nos olhos (sem desafiar), o nosso corpo está relaxado e com uma postura confortável. Sabemos quais são os nossos direitos e os direitos dos outros. Expressamo-nos sem agressão, discordando abertamente, manifestando interesses próprios. Somos emocionalmente honestos, aceitando e manifestando as nossas emoções agradáveis ou desagradáveis. Não nos sentimos superiores nem inferiores aos outros. Com esta postura, acabamos por nos sentir mais satisfeitos nos nossos relacionamentos e de uma forma geral, mais realizados.

 

Se acha que adopta predominantemente o terceiro tipo de atitude (assertiva), estará no bom caminho. Se concluiu que se encaixa mais nas duas primeiras (passiva ou agressiva), reserve a si mesmo alguns momentos do seu dia, no sentido de refletir sobre o que poderá precisar para que se possa auto-afirmar sem se sentir subjugado, manipulado ou culpado, e para que não o imponha aos outros. Procure esse equilíbrio. Isso é assertividade.

publicado às 13:58

Jogar xadrez para uma mente jovem

por oficinadepsicologia, em 22.09.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

Numa era de desempenhos e competências psicológicas, em que doenças de foro neurológico ganham um elevado destaque como algo a evitar, tem vindo a surgir nas ultimas décadas toda uma cultura de práticas associadas ao treino da mente.

 

Estes denominados “mindgames” pretendem manter ou aumentar a juventude do nosso cérebro, podendo também ter a função de reabilitar algumas das competências psicológicas pouco desenvolvidas e em casos de doença neurológica, desacelerar a velocidade de perda dessas competências. 

 

Pela elevada incidência deste tipo de doenças na nossa sociedade, pode-se considerar que a juventude do nosso cérebro não aparenta ser algo privilegiado pelo estilo de vida “moderno”.

 

Estamos normalmente expostos a níveis de stress, que são mais elevados do que gostaríamos. A sua presença terá várias razões que escapam ao nosso controlo, havendo no entanto uma pela qual somos responsáveis e sobre a qual será importante refletir. Tem a ver com a forma como o nosso cérebro está habituado a funcionar.

 

Pensando nalguns exemplos do nosso dia-a-dia, estamos habituados cada vez mais regularmente a nos deslocamos nos nossos carros guiados pelo GPS, que nos poupa o trabalho de pensar o caminho, de recordar ou antecipar cenários possíveis como qual o trajeto mais rápido ou menos congestionado.

 

A necessidade de armazenar e recuperar informação do nosso cérebro, parece estar a ser substituída por uma pesquisa rápida na internet, da qual selecionamos o tópico que nos esclarece mais rapidamente, para que tenhamos de mobilizar a atenção pelo mínimo tempo possível.

 

Com as situações mencionadas, podemos concluir que o conforto acrescido dos nossos tempos, nos ajuda a libertar a mente, dando-nos disponibilidade para atividades que de outra forma não poderiam ser realizadas, pois não as poderíamos fazer em simultâneo.  

 

Como será que aproveitamos esta disponibilidade adicional?

 

Será que realmente rentabilizamos esse tempo?

 

Uma resposta possível para muitos de nós é que “talvez não”. Esta cultura de modernidade que nos traz um inquestionável acréscimo de conforto, tem também o efeito de nos tornar menos ativos mentalmente. Somos muitas vezes conduzidos, para que nos tornemos agentes passivos de quantidades excessivas de estímulos, que tornam o nosso cérebro mais preguiçoso e resistente a tudo a que o obrigue a um tipo de atividade a que não está habituado. Esta forma de interagirmos com a nossa realidade, tende a provocar o envelhecimento precoce do nosso cérebro.

 

Poderá perguntar-se sobre o que terá o jogo de xadrez mencionado no título, a ver com o que leu até agora.

 

Posso-lhe dizer que muito. Desde os primórdios da psicologia, as primeiras gerações de investigadores e criadores dos testes de inteligência, já consideravam a prática regular de xadrez, como um factor com elevado impacto para o desenvolvimento de competências psicológicas.  

 

Ao longo de décadas, têm vindo a ser feitos numerosos estudos comparativos entre jogadores regulares de xadrez e jogadores principiantes, ao nível de competências como a memória (de trabalho e a longo prazo), percepção visual, imaginação, tomada de decisão e resolução de problemas, aquisição de conhecimento e idade cerebral.

 

São várias as evidências que a investigação nos fornece. Por exemplo, dois jogadores experientes podem estar a falar de um jogo que ocorreu há muito tempo atrás, sem a presença física de tabuleiro ou peças, recordando padrões de jogo, posições de peças no tabuleiro, jogadas alternativas, que para um jogador principiante, parecem aleatórias e como tal desprovidas de significado, sendo “menos memorizáveis”, mas que para os jogadores mais experientes terão um elevado significado, permanecendo assim acessíveis na sua memória.

 

Um outro exemplo da utilização mais eficaz do reconhecimento de padrões memorizados e capacidade de os trazer à consciência de forma eficaz, pode ser constatável ao apresentar-mos durante alguns segundos a dois jogadores, um experiente e um principiante, um tabuleiro de xadrez com peças aleatoriamente colocadas. Quando solicitados para reproduzir de memória o que viram, o jogador experiente conseguirá mais rapidamente e com maior precisão, recordar a forma como elas estavam dispostas, revelando uma maior capacidade de aceder aos conteúdos que memorizou.

 

É verdade que atualmente, existe à nossa disposição uma grande variedade de instrumentos ou programas de computador que permitem trabalhar de forma específica, cada uma das competências do nosso cérebro. Outras áreas como a música, programação informática, calculo matemático ou jogos de cartas como o poker, poderão desenvolver competências semelhantes às estimuladas pela prática regular de xadrez. Ou seja, não teremos naturalmente de nos restringir ao jogo de xadrez, para desenvolvermos competências psicológicas.

 

Independentemente dos benefícios associados, quem escolhe o xadrez como uma atividade para ocupar o tempo, beneficiará em fazê-lo pelo prazer de jogar, sendo este um motivo que a investigação confirma como sendo o mais indicado para manter a motivação e preservar o bem-estar que que a atividade confere.

 

Deveremos evitar utilizar o jogo de xadrez como uma ferramenta para um fim. Dessa forma, acabamos por adoptar respostas mais afectivas durante as partidas e tendemos a assumir uma atitude mais competitiva. A motivação (nestes casos mais extrínseca), fica condicionada pelos resultados menos positivos e acabamos por não desfrutar do jogo.

 

Se vamos jogar xadrez não pensamos muito nas competências que possamos estar a desenvolver. Queremos acima de tudo passar um bom bocado. Estamo-nos a implicar na atividade pelo desafio e prazer que nos dá, ou seja, com uma motivação intrínseca. É bom estarmos conscientes dos benefícios, mas quereremos acima de tudo, jogar. Se procura uma atividade construtiva com que possa ocupar a sua mente, considere dedicar algum tempo à prática deste jogo. E já agora, permita-se desfrutar...

publicado às 14:09

A morte e o tempo

por oficinadepsicologia, em 14.09.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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“Eu não tenho medo da morte, apenas não quero lá estar quando acontecer.”

 

Pedro Diniz Rodrigues

Esta conhecida frase do ator e realizador Woody Allen, mostra-nos com algum humor como a morte pode influenciar a forma como vivemos a nossa vida.

 

Conhecidos investigadores na área da psicologia da morte, desenvolveram estudos que confirmavam a ideia de que a preocupação com a morte influencia directamente o comportamento das pessoas.

 

O pensarmos sobre este tema e a frequência com que o fazemos, poderá levar-nos a sentir grandes alterações na forma como percepcionamos um outro aspecto importante, e que relacionamos com a morte: o tempo.

 

Afinal de contas, cada dia que passa é um dia mais perto do fim…

 

Alguns investigadores colocam a questão: Será que a noção que temos do tempo, está relacionada com a quantidade de vezes que pensamos sobre a morte?

 

O que os resultados dos estudos indicam é que a nossa percepcão do tempo, pode mudar em função da personalidade ou a presença de estados como o medo, a ansiedade ou a depressão.

 

Uma das teorias psicológicas associada à gestão do medo da morte, diz-nos que o estarmos demasiado conscientes dessa realidade, nos motiva, pelo nosso desejo instintivo de viver, a criar uma variedade de defesas psicológicas.

 

Encontramos simbolismos, procuramos significados e adoptamos uma visão do mundo que nos inclui como parte desse simbolismo, assegurando assim o nosso bem-estar e tranquilidade.

 

A natureza simbólica dessas defesas, baseada naquilo que cada pessoa quer acreditar, permite que a vida seja vista como mais duradora e permanente.

 

Outra defesa psicológica que também é utilizada, é o alongar da percepção do tempo, ou seja sobrestimar o tempo. Esta estratégia poderá ser uma tentativa de gerar uma maior quantidade de tempo do que, na verdade, existe e ver o tempo como particularmente abundante.

 

Fica assim a ideia de que mais tempo estende a vida e adia a morte. O que se conclui dos estudos realizados, é que parecem ser as pessoas que mais pretendem prolongar a sua vida, aquelas que pensam na morte com maior frequência.

 

Gostaria de relembrar para aqueles que de nós, se sentem preocupados com a morte ou inquietos com o tempo que ainda têm, um outro lado importante da noção de tempo, e fundamental para a forma como encaramos a vida e a morte: Este é o tempo de viver.

publicado às 10:52

Subtexto, dimensão que nos revela

por oficinadepsicologia, em 24.08.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

O subtexto ou entre-linhas como também conhecemos na linguagem de senso comum, assume-se na comunicação humana como um padrão de pensamento subjacente da mensagem a que está associado. Toda a nossa expressão (ou não expressão) contém subtexto. É portanto um aspecto importante da nossa comunicação, sobre o qual gostaria de reflectir consigo.

 

Quando interagimos, este subtexto aparece como que camuflado, pois normalmente não o vemos de forma totalmente clara. A sua mensagem é ofuscada pela mensagem principal, que o nosso interlocutor nos quer transmitir.

 

Por exemplo, se está num restaurante com um grupo de amigos e uma das pessoas com quem está a conversar lhe diz que está bem-disposta por alguma razão, o normal será interpretar o que lhe foi dito como verdade.

 

No entanto, se notar que essa pessoa está com um ar triste ou com uma postura abatida, é provável que já fique com algumas dúvidas sobre a veracidade dessa mensagem.

 

O que se pretende mostrar com este exemplo, é que o subtexto é algo que se estivermos atentos, poderemos observar, está lá na interação, e revela-nos informação adicional que enriquece a forma como interpretamos as situações.

 

De uma maneira mais ou menos evidente e por vezes repetitiva, revela-nos detalhes dessas situações, permitindo-nos ajustar melhor a essa realidade, e adequar (ou não) o nosso comportamento a um dado contexto social.

 

Se pensarmos novamente no exemplo do jantar, mas supondo agora que não conhecíamos ninguém, certamente nos será útil ter a noção de aspectos, como os melhores momentos para iniciar uma conversa ou dar uma opinião, e a receptividade ou interesse da outra pessoa em relação ao que estamos a dizer, para saber se continuamos ou não com a conversa. Esta informação é normalmente revelada pelo subtexto.

 

O valor desta linguagem implícita na nossa comunicação reside no seu elevado nível de verdade, na autenticidade da sua mensagem, na qualidade da informação que nos fornece sobre a nossa pessoa, através daqueles e sobre aqueles que interagem connosco. A importância do subtexto reside também na sua relação próxima com a auto-estima. Ao interagirmos, reflecte o que queremos e não queremos, caminhando lado a lado com as nossas emoções. A auto-estima por sua vez, está intimamente ligada às qualidades que apreciamos em nós e nos outros, bem como ao que nos faz sentir bem e ao que nos faz sentir mal.

 

O que implicitamente dizemos de nós, o modo como o dizemos, o destaque que damos a determinados aspectos da nossa personalidade em detrimento de outros, evidencia a existência de recursos internos que estão a ser mobilizados num dado sentido.

 

Simplificando, se estiver atento ao que é importante para si e para o outro, independente do tema da conversa, a interação torna-se mais satisfatória e gratificante.

 

Acha que nos apercebemos do subtexto que transmitimos aos outros?

 

Em parte sim, mas a grande maioria da informação que transmitimos não é diretamente perceptível, ou seja, só nos apercebemos quando estamos a conversar com alguém e essa pessoa nos diz por exemplo: O que se passa contigo hoje? Pareces um pouco irritado(a). Aconteceu alguma coisa? – Nessa altura reparamos por exemplo no quanto a conversa que tivemos nessa manhã com um vizinho, nos está ainda a aborrecer e a influenciar o nosso comportamento com as outras pessoas.

 

Haverão muitas formas de nos apercebermos da informação que transmitimos, mas se estivermos atentos a aspectos simples como este, passaremos a estar mais conscientes das entre-linhas da nossa comunicação e da riqueza do subtexto enquanto meio privilegiado de olharmos para nós e para o mundo.

publicado às 12:26

O que nos diz a memória

por oficinadepsicologia, em 18.08.12

Autor: Pedro Diniz Rodrigues

Psicólogo Clínico

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Pedro Diniz Rodrigues

Poderemos dizer que a memória nos diz quem somos, dá-nos uma noção de continuidade, confere-nos uma identidade que nos integra e realiza. Ao recordarmos, revela-nos e oculta-nos parte da nossa história. Olha por nós, organizando-se e zelando pelo nosso equilíbrio interno. Garante esta gestão, condicionando e orientando toda a nossa experiência pessoal.

 

Gostaria de reflectir consigo por alguns momentos, sobre a natureza dessa influência e de como é sentido em nós o efeito desta componente psicológica tão importante.

 

É provável que no decorrer da sua vida já se tenha deparado com pensamentos como:

 

Sinto-me assim e não sei porquê. Eu sei que não tenho motivo…

 

Reajo sempre daquela forma e não percebo a razão. Eu sei que não faz sentido, mas… Não consigo deixar de sentir ou pensar aquilo.

 

Quando falo com aquela pessoa, fico desconfortável... Não percebo, eu não sou assim.

 

Quando estou nervoso, fico a pensar no que pode acontecer… Isto faz-me lembrar quando era mais novo e fiquei muito muito nervoso numa dada situação.

 

Que aspectos lhe parecem comuns aqui?

 

Posso sugerir alguns. Para além do possível desconforto associado às situações em que estas frases aparecem, está o desconhecimento da sua causa. Ou seja limitamo-nos a constatar o produto final, de algo que não percebemos como surgiu. É como se estivéssemos a dançar ao som de uma música, que não nos agrada particularmente e que nem sequer sabemos como começou a tocar.

 

Para compreendermos um pouco melhor sobre como se criam tais predisposições e a forma como exercem os seus efeitos na nossa pessoa, será útil estabelecer algumas relações entre a memória e outros aspectos da nossa experiência subjectiva.

 

Numa primeira análise, será importante considerar que a memória tende a ser concordante com o nosso estado de humor, ou seja escolhemos a informação da realidade ou vamos buscar selectivamente a informação que temos armazenada, quando esta é concordante com o estado de humor em que nos encontramos nessa altura.

 

Por exemplo, quando se sente feliz tenderá a seleccionar ou recuperar memórias, em que o seu conteúdo é efectivamente positivo (mais do que se for um material que tenha uma representação deprimente ou negativa). Aquilo que experienciamos é então melhor aprendido se o tom afectivo da informação a que temos acesso, está em harmonia com o que estamos a sentir naquele momento.

 

Outro aspecto importante a considerar, é que a memória pode ser dependente do estado de humor, ou seja, há uma elevada probabilidade de recordar material que foi aprendido num determinado estado de humor, quando voltamos a estar num outro momento, num estado de humor semelhante.

 

Simplificando, se ouvir uma história ou viver um episódio da sua vida enquanto se estava a sentir triste ou deprimido, essa história ou acontecimento terá mais probabilidade de ser recordada quando se encontra novamente num estado de humor idêntico aquele em que tinha quando viveu essa situação.

 

O que a investigação nos diz é que este fenómeno varia em função da natureza do material memorizado, sendo mais consistente quando o tipo de conteúdo memorizado é auto-referente, ou seja, quando tem mais implicações na nossa pessoa, ou se preferirmos, quando é emocionalmente mais significativo.

 

Isto leva-nos a reflectir sobre a forma como a nossa memória se organiza. Será importante ter em conta que as memórias de acontecimentos emocionalmente intensos são retidas de forma diferente das memórias de acontecimentos tidos como neutros. Uma vez que as primeiras têm maiores implicações no equilíbrio psicológico e na capacidade de mantermos a integridade da nossa estrutura interna, tal informação fica portanto codificada no nosso cérebro de formas mais complexas, com ligações mais densas. É no entanto curioso pensar, que as memórias que mais nos influenciam, são aquelas que temos mais dificuldade em aceder.

 

Se um determinado acontecimento das nossas vidas, desencadeia emoções extremas, ou se somos expostos a uma situação traumática intensa e repetida, tendemos a desenvolver vários tipos de reacções defensivas que vão desde a simples negação da realidade vivida até aquilo que chamamos de amnésia psicogénica.

 

Existe nestes casos, uma quantidade abundante de informação significativa que não estará acessível à consciência sem a ajuda de pistas contextuais adequadas. A nossa emoção, que embora possa inibir o processamento de detalhes que são irrelevantes ou secundários à situação que desencadeou a nossa resposta emocional, é responsável por revestir a memória de características centrais ou essenciais dos eventos traumáticos.

 

Enquanto aspectos factualmente neutros da nossa memória, requerem um processamento mais intencional no nível da recordação explícita, aspectos emocionais fortemente associados a detalhes perceptivos e sensoriais (audição, visão, olfacto, e outros) evocados na altura do acontecimento, são mais difíceis de serem recuperados com tentativas explícitas. Tais eventos são mais acessíveis sob condições de recordação implícita.

 

Resumindo, a nossa dificuldade em recordar eventos emocionais significativos, consiste parcialmente no acesso insuficiente à informação sobre a situação, armazenada a um nível explícito (ou consciente) da memória.

 

Esta aparente diferença na organização das nossas memórias, mas ao mesmo tempo interligada, dá assim origem ao fenómeno da dissociação da memória, ou seja, em que a emoção que esteve associada ao evento que a desencadeou, volta a ser experienciada na ausência desse evento. Esta dissociação de memória, pode-se também evidenciar de maneira oposta, quando recordamos a informação da situação, mas não conseguimos aceder ao impacto emocional que essa situação teve em nós. É uma memória sem emoção aparente.

 

Poderá perguntar-se sobre qual a utilidade de recuperar o que não nós é naturalmente acessível na nossa mente consciente? Porquê remexer em algo que a nossa memória não nos quer mostrar?

 

A possibilidade de ter acesso a tal movimento interno de procura, ajuda-nos a perceber a causa da nossa predisposição para agirmos num padrão que não nos satisfaz, de passarmos a ter a possibilidade de quebrar esse padrão, refinando-o e aprimorando a forma como ele se manifesta, tornando-o mais adaptativo e satisfatório.

publicado às 10:55


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